ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

Rússia e China recusam-se a participar de videoconferência do Conselho de Segurança da ONU

Em abril deste ano (2020), a Organização para a Interdição das Armas Químicas (OIAC) publicou um relatório pioneiro, que apontou o governo de Bashar al-Assad como responsável por três ataques químicos ocorridos em 2017, na Síria. A OIAC recebeu novas atribuições em 2018 para investigar as ofensivas químicas no país, vez que a Rússia, alegadamente, bloqueava investigações independentes desses ataques. As conclusões do relatório comporiam a pauta da reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, realizada em 12/05/2020, a qual foi boicotada pela Federação Russa e pela China.

De acordo com um dos diplomatas presentes na reunião, que foi realizada por videoconferência em virtude da COVID-19, as janelas da Rússia e da China apareceram vazias no ecrã. Mais tarde, durante uma conferência de imprensa virtual, o embaixador russo para as Nações Unidas, Vassily Nebenzia, afirmou que Moscou pediu que a interação fosse conduzida de maneira aberta e salientou que: “Infelizmente, nossos parceiros ocidentais e seus aliados insistiram em conduzir essa reunião a portas fechadas, em ambiente informal, apesar dos slogans de abertura e transparência do Conselho de Segurança. Tal abordagem é inaceitável para nós, porque prejudica as prerrogativas dos Estados quanto à Convenção de Armas Químicas”.

Logotipo da Organização para a Interdição das Armas Químicas

Essa visão não é corroborada pela Missão Diplomática do Reino Unido para as Nações Unidas, que defendeu o formato fechado da reunião como uma maneira dos membros do Conselho de Segurança e da República Árabe da Síria manterem um diálogo franco sobre o relatório. Em comunicado, a Missão britânica afirmou categoricamente que: “Uma recusa em comparecer à reunião e engajar com a OIAC sobre suas descobertas é desconcertante e indicativo da preferência de alguns membros do conselho em sabotar a proibição do uso das armas químicas por atacar as pessoas e instituições encarregadas de protegê-la”.

Cabe lembrar que a OIAC é responsável por salvaguardar a Convenção de Armas Químicas de 1997, e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2013. Ao ser imbuída do poder de imputar responsabilidade sobre ataques químicos em 2018, suas atribuições foram questionadas por Pequim e Moscou, que as consideraram ilegítimas e propuseram que tais assuntos passassem pelo crivo do Conselho de Segurança da ONU. Em resposta, representantes dos Estados Unidos e do Reino Unido na Organização consideraram a posição dos governos citados uma “hipocrisia pungente”, nas palavras do enviado americano para a OIAC, Kenneth Ward.

Entre as conclusões apresentadas pelo relatório estavam evidências da culpabilidade de Damasco em investidas químicas contra a população síria utilizando bombas de gás sarin e cloro, entre 24 e 30 de março de 2017, que vitimaram cerca de 106 pessoas, incluindo crianças. Pesquisadores do Instituto Global de Política Pública de Berlim, em conjunto com parceiros sírios e internacionais compilaram cerca de 345 ataques substanciais pela Síria, e concluíram que 98% dos ataques foram pelas mãos de Bashar al-Assad e o resto foi imputado ao Estado Islâmico. Ainda que enfrentando tais acusações, a Federação Russa, principal aliada do regime sírio, defende o país parceiro sustentando que a Síria cessou seu programa de armas químicas, destruiu seu arsenal e parou de produzi-las.

Armas químicas

De fato, desde o ano dos bombardeios aéreos (2017), China e Rússia tem dificultado a ação do Conselho de Segurança da ONU ao vetar resoluções de sanção à Síria quanto às armas químicas. A Anistia Internacional chegou a dizer que ambos os países “demonstraram um insensível desrespeito pelas vidas de milhões de sírios” ao se posicionarem de tal maneira. Na ocasião, as duas nações clamaram por escrutínio e investigação internacional objetiva e imparcial antes de imputar a culpa em uma ou outra parte. No entanto, quando um órgão independente e prestigiado (OIAC) assumiu as investigações e apresentou suas descobertas, o Kremlin, endossado pela China, recusou-se a participar das discussões, o que coloca em evidência suas postulações.

A respeito da recusa em participar da videoconferência do Conselho de Segurança e em desafio ao relatório da OIAC, o embaixador Nebenzia esclareceu ainda que Moscou conduzirá investigação própria sobre o uso de armas químicas na guerra da Síria e que compartilhará os achados com o mundo, o que igualmente contradiz a ideia de investigação independente e imparcial. Ainda não se sabe se as próximas reuniões mensais da pasta contarão com a presença dos países de Putin e Xi Jinping. Sabe-se apenas que as potências (Euro)Asiáticas oferecem resistências que impugnam mesmo elementos factuais apresentados uma e outra vez, repetidamente.  

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Putin em videoconferência do Conselho Supremo da Eurásia” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/63367/photos/63854

Imagem 2 Logotipo da Organização para a Interdição das Armas Químicas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:OPCW_-_Organisation_for_the_Prohibition_of_Chemical_Weapons_logo.png

Imagem 3 Armas químicas” (Fonte): https://post.parliament.uk/research-briefings/post-pn-0596/

About author

Mestranda em Estudos Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Foi delegada brasileira da Juventude na 16ª Cúpula de Prêmios Nobel da Paz. Morou na Irlanda, certificou-se professora de inglês, e mudou-se para Lisboa, onde estagiou para o Instituto para Promoção da América Latina e Caribe e trabalhou para a Wall Street English. Áreas de interesse são sustentabilidade, policy-making, peacekeeping, intel e pesquisa.
Related posts
ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

A Reforma Constitucional russa

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Transporte aéreo e turismo latino-americanos afetados pela pandemia

ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

Justiça social e infância: campanha entre UNICEF e União Africana

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Turquia e Irã promovem ataques ao Curdistão iraquiano

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!
Powered by