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Rússia e EUA: a nova corrida espacial

Há 50 anos, o astronauta norte-americano Neil Armstrong dava os primeiros passos na Lua, completando uma etapa do processo exploratório iniciado alguns anos antes, quando EUA e União Soviética entravam numa disputa de capacidades, no intuito de ultrapassar limites, os quais o homem nunca havia alcançado, e que seria a maior aventura humana no século XX, dando início, assim, a chamada “Corrida Espacial”.

Foguete russo Soyuz

Este processo exploratório, segundo especialistas, teve início quando os EUA lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial (1945), imergindo a civilização numa nova ordem global, em que o poder e a influência não se mediriam em termos de esforço humano, mas, sim, de avanços tecnológicos.

Para suplantar essa “vantagem” apresentada pelos norte-americanos, a União Soviética deveria apresentar, de forma bastante rápida, estratégias adequadas que lhes dessem igual ou superior influência internacional. De acordo com historiadores, em apenas quatro anos, os soviéticos desenvolveram sua primeira bomba atômica (1949) e, por esta ser mais pesada que a dos EUA, tiveram também que desenvolver foguetes mais poderosos para poderem transportá-la.

Foguete soviético R7 – Semyorka

O responsável por essa tarefa foi o engenheiro ucraniano Sergei Pavlovich Korolev, que projetou os mais poderosos foguetes, entre eles o R-7 Semyorka*, que era nove vezes mais potente que qualquer outro lançador criado até aquele momento. No entanto, tal dispositivo se mostrou de forma desqualificada para ser utilizado como arma, devido ao enorme tempo dispendido para preparar seu lançamento, sendo, assim, direcionado para a exploração espacial.

Desde então, a União Soviética se empenhou em ultrapassar os EUA na exploração do espaço sideral, quando foram responsáveis pelo lançamento do primeiro satélite orbital transmissor de sinais de rádio, batizado com o nome de Sputnik (Outubro de 1957); pelo lançamento do primeiro ser vivo ao espaço, a cadela Laika (Novembro de 1957); pelo marco histórico do primeiro ser humano (Yuri Gagarin) a ser lançado em órbita (Abril de 1961) e completar uma volta em torno da  Terra em 1 hora e 48 minutos, deixando para a posteridade a frase “A Terra é azul”; e também pela primeira “caminhada” espacial, que foi realizada pelo cosmonauta russo Alexei Leonov (Março de 1965).

Cosmonauta soviético Yuri Gagarin

Após a série de sucessos soviéticos, os EUA necessitavam de uma façanha ainda maior, levar um homem até a Lua, o que foi realizado em 20 de Julho de 1969, fruto do ímpeto do Governo do Presidente J. F. Kennedy, aliado ao auge da economia norte-americana, que proporcionou o investimento de somas gigantescas no programa aeroespacial da época, ultrapassando, assim, a União Soviética, que direcionou seus esforços para a construção da primeira estação espacial temporal: a Salyut 1 (Abril de 1971).

Décadas se passaram sobre essa “corrida”, trazendo sucessos e fracassos para ambos os lados, mas, que beneficiaram o desenvolvimento tecnológico mundial na área aeroespacial diante de muitas descobertas realizadas pela determinação e coragem de ambas as nações, que estão de volta para uma nova etapa da exploração do espaço.

Atualmente, Rússia e China já iniciaram negociações sobre a expansão da cooperação na indústria espacial, o que dará início a uma aliança capaz de realizar missões tripuladas conjuntas, inclusive para a Lua, onde pretendem criar uma estação lunar tripulada permanente, além de colocar em órbita equipamentos de observação espacial de alta capacidade tecnológica, como o satélite científico russo Spektr-RG, fabricado em parceria com a Alemanha, e que levará ao espaço o telescópio eROSITA**.

O Governo dos EUA, por sua vez, segundo o presidente Donald Trump, determinou que a NASA (Agência Espacial Norte Americana) empenhe esforços não só para voltar a pisar na Lua brevemente, como, também, colocar a bandeira e a pegada norte-americana no solo marciano até 2030, mas, até que o seu novo foguete esteja finalizado para as futuras missões, a NASA tem que pagar 80 milhões de dólares (cerca de R$ 301,87 milhões – cotação de 26/07/19 >> US$1 = R$ 3,7734) para a Agência Espacial Russa para cada astronauta norte-americano que pegar “carona” em seu foguete Soyuz, como foi o caso do lançamento russo realizado no último dia 20 de julho (2019), o qual partiu de Baikonur, localizado no Cazaquistão.

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Notas:

* Inicialmente, o foguete Semyorka foi criado em 1957 como míssil balístico destinado a levar cargas termonucleares a qualquer ponto do globo terrestre. Entretanto, suas possibilidades técnicas eram muito mais amplas do que as exigências em relação à arma balística, algo que o tornou pivot da cosmonáutica soviética. Pertencia à família dos R-7, que apresentou integrantes como o Sputnik 8K71PS (1957), o Vostok 8K72K (1960), o Voskhod 11A57 (1963) e o Soyuz 11A511 (1966), cuja plataforma é utilizada desde então como lançador de satélites e cosmonautas.

** O eROSITA é dotado de sete detectores de raios X. Permitirá observar mais de 100 mil clusters galácticos e obter imagens de milhões de buracos negros, grupos de galáxias e estrelas de nêutrons mortos, marcando “o início de uma nova era na astronomia de raios X”, segundo comunicado do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, em Munique, que forneceu o instrumento.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Astronauta norteamericano Neil Armstrong” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Neil_Armstrong#/media/Ficheiro:Neil_Armstrong_pose.jpg

Imagem 2 Foguete russo Soyuz” (Fonte): https://archive.org/download/nasahqphoto-7187014046/nasahqphoto-7187014046.jpg

Imagem 3 Foguete soviético R7 Semyorka” (Fonte): http://www.b14643.de/Spacerockets_1/East_Europe_1/Semyorka/Gallery/R-7_1big.jpg

Imagem 4 Cosmonauta soviético Yuri Gagarin” (Fonte): https://incrivelhistoria.com.br/yuri-gagarin-terra-azul-1961/

Imagem 5 Família de foguetes russos R7” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/R-7_(família_de_foguetes)#/media/Ficheiro:Roket_Launcher_R-7.svg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia de Empresas pela FEA-USP. Especialista em finanças (FP&A) com mais de 20 anos de experiência em empresas multinacionais na área de Planejamento Financeiro e Controladoria com certificação 6Sigma Green Belt. Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional.
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