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Rússia realiza teste com míssil intercontinental em resposta simétrica aos EUA

Em 24 de agosto (2019), as Forças Armadas da Rússia realizaram testes com o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais* a partir de submarinos nucleares posicionados no Oceano Ártico e no mar de Barents. Tais procedimentos, segundo informações, fazem parte das “medidas simétricas” que o Presidente russo, Vladimir Putin, exortou em uma reunião realizada de forma urgente com o Conselho de Segurança da Federação Russa, no dia anterior aos testes, quando foram direcionadas responsabilidades ao Ministério da Defesa, ao Ministério das Relações Exteriores e a outras instituições especiais, no intuito de analisar o nível de ameaça à Rússia criada pelas ações dos EUA.

Teste com míssil de cruzeiro norte-americano – Agosto 2019

As referidas manobras dos EUA, as quais a Rússia presta acusação, se baseiam em teste realizado em 18 de agosto, na ilha de San Nicolas, costa do estado da Califórnia, com artefato militar proibido pelo Tratado INF**, do qual as duas nações se retiraram por conta de alegações mútuas de desrespeito ao acordo bilateral. Na referida ocasião, o Departamento de Defesa norte-americano realizou um teste de voo de um projétil a partir de um sistema de lançamento vertical denominado Mark 41. Segundo informações do Pentágono, o artefato, que é uma variação de um míssil de cruzeiro de ataque terra-terra Tomahawk, atingiu com precisão um alvo localizado a mais de 500 quilômetros de distância no Oceano Pacífico.

Logo após o teste norte-americano, não só Rússia, como também a China, condenaram tais ações denunciando o risco de uma escalada de tensões militares e de retomada da corrida armamentista, podendo haver graves consequências negativas para a segurança regional e internacional.

Especificações de mísseis intercontinentais russos

Os mísseis russos utilizados nos testes pertencem às classes Bulava e Sineva, ambos do tipo SLBMs[vídeo 1] (sigla do inglês Submarine Launched Ballistic MissilesMísseis Balísticos Lançados de Submarinos), que têm como plataforma de lançamento, propriamente dita, os SSBNs (sigla do inglês Ship Submersible Ballistic missile Nuclear poweredSubmarino Nuclear Lançador de Mísseis Balísticos). As principais características técnicas dos mísseis são:

– Bulava (SS-NX-30), denominação OTAN SS-N-20 Sturgeon: É uma versão do mais avançado míssil balístico russo, o Topol-M (SS-27)[1]. Peso total de 36,8 toneladas com propulsão a partir de combustível sólido, possui segmentação de 3 estágios podendo transportar de 6 a 10 ogivas nucleares e atinge alvos a uma distância de até 10 mil quilômetros com precisão entre 250-300 metros.

Bulava (SS-NX-30)

– Sineva (RSM-54), denominação OTAN SS-N-23 Skiff[2]: Com peso total de 40 toneladas, é um míssil balístico intercontinental com propulsor líquido de 3a geração. Possui capacidade de transportar de 4 a 10 ogivas nucleares e atinge alvos a uma distância de até 11.500 quilômetros com precisão de 500 metros. Está equipado com contramedidas de defesa antimísseis e o seu curso pode ser corrigido com o auxílio de satélites de navegação.

Os submarinos nucleares russos responsáveis pelos lançamentos podem executar a manobra em movimento de até 13 quilômetros horários em uma profundidade de 55 metros, com capacidade de armazenamento de 16 mísseis cada, sendo que todo míssil pode carregar até 10 ogivas nucleares com capacidade de até 100 Kt (Quilotonelada de TNT – Trinitrotolueno) por unidade, quantidade de material explosivo suficiente para destruir uma cidade de grandes proporções.

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Notas:

* Um míssil balístico intercontinental é um projétil que segue uma trajetória pré-determinada, que não pode ser significativamente alterada após o míssil queimar todo o seu combustível (a sua trajetória fica governada pelas leis da balística – física). Para cobrir grandes distâncias, a trajetória dos mísseis balísticos atinge as camadas mais altas da atmosfera ou o espaço, efetuando um voo sub-orbital.

** Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (do inglês – Intermediate-Range Nuclear Force), o qual foi assinado em 8 de dezembro de 1987 pelo Presidente norte-americano à época, Ronald Reagan, e pelo Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev. O Tratado tinha como meta a total eliminação de mísseis balísticos e de cruzeiro, nucleares ou convencionais, cujo alcance efetivo estivesse entre 500 e 5.500 quilômetros de distância. No dia 18 de junho (2019), a Duma (Câmara Baixa da Rússia, similar à Câmara dos Deputados no Brasil) aprovou por ampla maioria (417 votos a favor e uma abstenção) a suspenção do Tratado. Esta votação é o resultado de vários anúncios proferidos pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, desde o dia 2 de fevereiro deste ano (2019), em resposta à decisão do Presidente dos EUA, Donald Trump, que, em 20 de outubro de 2018, anunciou que seu governo iria encerrar sua participação no referido Tratado.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Lançamento de míssil Bulava no Mar de Barents” (Fonte): https://img.rg.ru/img/content/166/42/78/TASS_26944994_d_850.jpg

Imagem 2 Teste com míssil de cruzeiro norteamericano Agosto 2019” (Fonte): https://www.defense.gov/Newsroom/Releases/Release/Article/1937624/dod-conducts-ground-launch-cruise-missile-test/#pop3619408

Imagem 3 Especificações de mísseis intercontinentais russos” (Fonte): https://i.ytimg.com/vi/VRfsgTkJncc/hqdefault.jpg

Imagem 4 Bulava (SSNX30)” (Fonte): https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/images/3m14-image244.jpg

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Fontes de Vídeos:

[Video 1]:“Lançamento de mísseis balísticos a partir de submarinos” (Fonte):

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Links apresentando as características técnicas dos mísseis russos:

[1] Ver: https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/r29rmu.htm

[2] Ver: https://www.globalsecurity.org/wmd/world/russia/3m14.htm

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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