ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Rússia torna-se o maior comprador de ouro do mundo em 2019

À medida que as nações buscam a diversificação de seus ativos e menos dependência do dólar, o desejo de comprar ouro foi impulsionado, também nos últimos anos, pela incerteza econômica causada por tensões comerciais, crescimento econômico mundial lento e um ambiente de baixa taxa de juros.

O motivo para essa corrida entre as nações do mundo pelo aumento de suas reservas de ouro em seus Bancos Centrais é baseado principalmente pelas características específicas que o nobre metal apresenta. O ouro é um ativo altamente líquido, mas escasso. É comprado como um bem de luxo, tanto quanto um investimento, e, como tal, pode desempenhar quatro papéis fundamentais em uma carteira:

 • Uma fonte de retornos de longo prazo;

 • Um diversificador que pode mitigar perdas em tempos de estresse de mercado;

 • Um ativo líquido sem risco de crédito, que superou moedas fiduciárias;

 • Um meio de melhorar o portfólio global da performance econômica de um país.

Logotipo do World Gold Council

Desde 2001, a demanda de investimentos por ouro mundial cresceu, em média, 15% ao ano, de acordo com dados do World Gold Council (WGC). Isso tem sido impulsionado, em parte, pelo advento de novas formas de acesso ao mercado, como fundos negociados em bolsa (ETFs – Exchanged Trade Funds*) apoiados por ouro físico, mas, também, pela expansão da classe média na Ásia e um foco renovado na gestão efetiva de riscos após os ETFs de 2008-2009 (crise financeira nos EUA e na Europa).

Histórico das reservas de ouro da Rússia – em toneladas

Hoje, o ouro é mais relevante do que nunca para investidores institucionais atraídos pelo papel do metal como diversificador, devido à sua baixa correlação com a maioria dos ativos tradicionais (principalmente moedas fiduciárias que não apresentam lastro), e como um hedge contra o risco sistêmico e fortes recuos do mercado de ações. Como ativo estratégico, historicamente melhorou o retorno ajustado ao risco das carteiras, proporcionando retornos ao mesmo tempo em que reduz perdas e fornece liquidez para atender passivos em tempos de estresse no mercado.

Ranking dos países produtores de ouro

Posto isso, ao longo da última década, o aumento das incertezas econômica e geopolítica têm sido as forças motrizes que impulsionaram a compra de ouro pelos principais Bancos Centrais do planeta, particularmente a dos mercados emergentes. A década foi cercada por políticas monetárias não convencionais (como taxas de juros baixas ou negativas), a fim de restaurar a estabilidade econômica e o crescimento, bem como o aumento do nacionalismo/populismo, guerras comerciais e riscos de conflitos armados. Em resposta, os Bancos Centrais aumentaram sua alocação para o ouro, como foi o caso da Federação Russa que, em 2019, comprou 159 toneladas, elevando as reservas do metal a 2.271,2 toneladas. Graças a esse volume, o país eslavo se tornou o maior comprador de ouro monetário do ano, acumulando 20% das transações globais, além da terceira posição mundial como produtor.  

Ranking dos países com maiores reservas de ouro

A Rússia superou a China ainda em 2018, e a diferença entre os dois países só cresce. Pequim adquiriu cerca de 100 toneladas de ouro em 2019, atingindo 1.948 toneladas. O ranking global de reservas de ouro é liderado pelos EUA (8.133,5 toneladas), Alemanha (3.366,5), Itália (2.451,8) e França (2.436,0); em quinto lugar vem a Rússia.

Como as reservas dos países líderes permanecem inalteradas há anos, não se pode descartar que a Federação Russa venha a subir novas posições a partir de 2020.

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Nota:

* Exchange-Traded Fund (ETF) é um fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores como se fosse uma ação. Um ETF detém ativos como ações, commodities ou títulos e, geralmente, opera com um mecanismo de arbitragem projetado para mantê-lo negociando próximo do seu valor patrimonial líquido, embora ocasionalmente possam ocorrer desvios. A maioria dos ETFs acompanham um índice, como um índice de ações ou índice de títulos, como, por exemplo, o Ibovespa Fundo de Índice (BOVA11). Neste caso, se o Ibovespa subir 10% em um mês, o ETF do Ibovespa vai ter um desempenho muito parecido, já descontando a taxa de administração. Caso o índice se desvalorize, o mesmo vai acontecer com a cota do ETF. Os ETFs podem ser atraentes como investimentos por causa de seus baixos custos, eficiência tributária e recursos semelhantes a ações.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barras de ouro” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:400-oz-Gold-Bars-AB-01.jpg

Imagem 2 Logotipo do World Gold Council” (Fonte): https://www.gold.org/

Imagem 3 Histórico das reservas de ouro da Rússia em toneladas” (Fonte): https://tradingeconomics.com/russia/gold-reserves

Imagem 4 Ranking dos países produtores de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/data/historical-mine-production

Imagem 5 Ranking dos países com maiores reservas de ouro” (Fonte): https://www.gold.org/goldhub/research/gold-demand-trends/gold-demand-trends-full-year-2019

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
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