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Seca na Etiópia ilustra os desafios para a adaptação às mudanças climáticas

A severa seca que assola a Etiópia representa perfeitamente o dilema climático atual. O fenômeno do El Niño, ocorrido no ano passado (2016), somado às mudanças na temperatura no Oceano Índico ao longo de 2017 levaram a uma queda abrupta no ritmo das chuvas, comprometendo as colheitas e o abastecimento de água de centenas de milhares de famílias pastoris.

Logo da Amity Foundation

A região de Somali é a mais afetada. Está na parcela leste do país, em direção à Somália. Estima-se que 450 mil pessoas abandonaram os seus locais de origem e rumaram para campos de refugiados. Enquanto no ano passado o Governo etíope e as organizações internacionais conseguiram angariar, aproximadamente, 2 bilhões de dólares em fundos para a assistência a essas populações, neste ano (2017) a mesma quantia demonstra ser cada vez mais impossível, dada a emergência de crises similares em tantas outras regiões do continente, como na Nigéria e no Sudão do Sul.

Uma das poucas e últimas assistências internacionais veio da China – um dos principais parceiros econômicos e diplomáticos da Etiópia. A organização não-governamental chinesa Amity Foundation anunciou na última sexta-feira, dia 21 de julho, um projeto de, aproximadamente, 600 mil dólares a ser implementando na região de Somali. O auxílio foi anunciado na capital Addis Ababa, pelo cônsul chinês Lin Zhimin. Entretanto, a quantia sequer se aproxima do valor estimado de 1 bilhão de dólares necessários em doações e apoio para a mitigação total dos efeitos.

OXFAM distribuindo suplementos na Etiópia, durante a seca de 2011

As doações, por sua vez, conforme avalia o Comissário Etíope para o Gerenciamento de Riscos e Desastres, Mitiku Kassa, representam medidas paliativas, uma vez que a solução real do problema se faz um pouco mais complexa. Adaptação e resiliência são conceitos que despontam na compreensão de como sociedades deverão se adaptar às mudanças climáticas. No caso de Somali, especificamente, o elevado número de secas nos últimos 10 anos – em 2008 e 2011 também presenciou-se este fenômeno – demonstra haver uma tendência geral de repetição deste evento nos próximos anos e, com isso, uma intrínseca necessidade de adaptar os sistemas sociotécnicos de produção e de reprodução social à nova conjuntura ambiental. Para tanto, faz-se necessário não somente uma presença maior dos organismos internacionais nas formas de doações e financiamentos, mas também uma presença governamental na consolidação de assistência técnica.

Parte das autoridades políticas locais tem tentando induzir as famílias pastoris a novos tipos de atividade econômica, baseadas principalmente na agricultura sedentária, de uso intensivo de sistemas de irrigação promovidos pelo Governo. No entanto, a mudança planejada tem encontrado barreiras sociais e culturais. As famílias pastoris, tradicionalmente nômades, relutam em organizarem-se em formas de vida sedentária, tendo em vista que esta representa profunda ruptura com a tradicionais práticas e crenças.

Neste sentido, os entraves culturais e sociais que as famílias somalis encontram para a adaptação a uma nova conjuntura climática ilustra, mais do que adequadamente, as mesmas dificuldades que todos e todas ao redor do mundo encontrarão ao longo deste século para a adaptação. A edificação de comunidades resilientes às mudanças climáticas depende, inevitavelmente, de uma série de rupturas – as quais, muitas vezes, não se está disposto a incorrer.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Foto USAID sobre as condições de seca na Etiópia” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/File:USAID_2011_Horn_of_Africa_Drought_Ethiopia.jpg

Imagem 2Logo da Amity Foundation” (FonteAmity Foundation):

http://www.amityfoundation.org/eng/organizational-structure

Imagem 3OXFAM distribuindo suplementos na Etiópia, durante a seca de 2011” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/2011_East_Africa_drought

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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