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Segregação urbana aumenta a desconfiança entre raças na África do Sul

Vinte anos após o fim do apartheid, os problemas relacionados à segregação racial ainda persistem na África do Sul. Prova disto são os inúmeros protestos que o país vivencia semanalmente, onde os manifestantes requerem maiores direitos à educação, emprego e segurança pública[1][2].

Conforme vem sendo disseminado, a segregação racial ainda persiste no mercado de trabalho e no ensino dos jovens sul-africanos. Há mais de 20 anos, as medidas legais legitimavam a segregação racial; atualmente, esta se mantém devido à desigualdade na posse de bens materiais e de qualificação técnica[1].

Dessa forma, grandes cidades sul-africanas, como Joanesburgo e a Cidade do Cabo, possuem suas periferias constituídas majoritariamente pela população negra, ao passo que as regiões centrais são habitadas, em sua maioria, pelos brancos, criando um verdadeiro “mosaico” urbano[3]. Esta organização urbanística traz uma série de implicações à vida cotidiana dos sul-africanos. Vale ressaltar duas delas.

A primeira diz respeito ao deslocamento urbano, problema similar ao que muitas cidades ao redor do mundo enfrentam: a população negra trabalha longe de suas residências, o que implica em maciço tráfego em direção à região central[3]. Com isso, vias públicas encontram-se congestionadas e a riqueza perdida é significativa.

Visando lidar com estes problemas, a Prefeitura de Joanesburgo leva a cabo projetos para a construção e estruturação de bairros perto dos grandes centros empresarias, a fim de solucionar o problema da mobilidade urbana nesta cidade[3]. No entanto, não se trata somente de resolver a questão do tráfego, mas sim em aumentar a confiança e a interação entre negros e brancos – segunda implicação da segregação urbana mencionada.

Inúmeros estudos – como a clássica pesquisa de Mark Granovetter, da Universidade de Stanford, intitulada “The strength of weak ties[4] – apontam que um dos principais entraves para o incremento de renda da população pobre é a falta de conectividade e de relacionamentos pessoais com membros de outros círculos sociais, o que comumente é tratado pela expressão em inglês “networking”. Além disso, uma maior comunicação e interação social entre membros de diferentes classes e raças é essencial para construção de um sistema democrático amplo.

A crescente desigualdade racial na África do Sul reduz o nível de confiança que um negro tem em relação aos brancos e vice-versa. Isto é ilustrado pela insatisfação dos futuros vizinhos do contingente a ser deslocado para estes bairros estruturados. Segundo autoridades locais, os habitantes desconfiam de seus novos vizinhos, temendo o aumento no número de furtos[3].

A desconfiança é, em grande parte, produto da histórica segregação e do aumento recente da desigualdade. Em pesquisa executada pelo Gauteng City-Region Observatory (GCRO), divulgada na última semana, constatou-se que a desconfiança de uma raça para com a outra vem aumentando de ano a ano na África do Sul[5]. De 2009 para 2013, o número de negros que não confiavam em brancos subiu de 68% para 73%; no que diz respeito à desconfiança de brancos para com os negros, esta também subiu, de 40% para 44%.

Claramente, esta situação faz emergir uma série de disfunções sociais, como o aumento da violência e do desemprego entre jovens. Dessa forma, lidar com os bolsões de pobreza aparece como questão crucial para a instituição de direitos amplos na África do Sul.

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ImagemSydney Morning Herald” (Fonte):

http://www.smh.com.au/travel/joburg-gets-its-groove-back-20120301-1u4ij.html

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Fontes consultadas:

[1] VerCEIRI Newspaper”:

https://ceiri.news/em-meio-protestos-contra-conjuntura-economica-e-politica-sul-africanos-vao-urnas/

[2] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/02/14/world/africa/south-african-protests-target-broken-promises.html?_r=1

[3] VerThe Economist”:

http://www.economist.com/news/middle-east-and-africa/21612238-urban-communities-remain-divided-along-racial-lines-can-be-changed-still

[4] GRANOVETTER, M, S. “The Strength of Weak Ties”. American Journal of Sociology, volume 78. n. 6, pp. 1360-1380, Maio de 1973.

[5] VerNews24”:

http://www.news24.com/SouthAfrica/News/Blacks-whites-dont-trust-each-other-survey-20140814

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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