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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

“Síndrome de Galápagos”: o Japão tímido e recluso

Durante o século XX, as marcas japonesas Toyota e Nintendo eram símbolos da desenvoltura internacional japonesa. No século XXI, as mesmas marcas geraram dúvidas. Em 2010, a Toyota surpreendeu o mundo pedindo desculpas aosEstados Unidospelo defeito de seus carros[1][2]. Mais tarde, em 2013, a Nintendo decidiu participar com timidez da E3, importante feira mundial de diversões eletrônicas[3][4]. Ambos os fatos foram associados ao que tem sido chamado de “Síndrome de Galápagos Japonesa”.

Embora especulativa, a “Síndrome de Galápagostem sido usada para descrever a tendência de o Japão confinar-se nos próprios limites, como ocorre à fauna e à flora das ilhas Galápagos[5][6]. O termo derivou dos celulares japoneses. Eles possuem inovação tecnológica que seria apreciada em qualquer lugar do mundo – se pudessem ser compreendidos ou mesmo utilizados fora do Japão[7]. Com o tempo, o termo serviu para descrever uma tendência de reclusão japonesa em todos os sentidos.

Especula-se que a situação tenha sido desencadeada pelos revezes econômicos sofridos pelo Japão nas duas últimas décadas do século XX. Os sintomas dessa Síndrome teriam sido agravados pelas recentes tragédias ocorridas no país. Problemas sociais e retrações econômicas parecem indicar que o Japão parece realmente optar pelo exílio auto-imposto. É um fenômeno contraditório, considerando que ainda possui uma economia desenvolta, desfrutando de aceitação cultural no mundo.

História

A provável “Síndrome de Galápagos” deriva da própria história japonesa, que oscila entre a retração nacional e a expansão mundial. Durante o período do xogunato, o país fechou-se ao contato externo, tendo-se aberto somente após a ascensão do “Império Meiji”, cujas reformas modernizantes inseriram o Japão na economia mundial e na corrida imperialista. Mais tarde, após a derrota na “Segunda Grande Guerra”, os auxílios financeiros estadunidenses tornaram o Japão a segunda maior potência econômica do mundo.

O sucesso japonês incomodou e encantou os Estados Unidos durante a década de 1980. Essa ambivalência podia ser verificada na literatura best seller norte-americana. Autores de ficção científica, como William Gibson, descreviam o futuro como um lugar dominado por companhias japonesas. Enquanto isso, manuais de administração explicavam o sucesso dos executivos japoneses por meio do pensamento de samurais como Miyamoto Musashi.

Durante as décadas de 1990 e de 2000, o fim de diversas bolhas especulativas infligiu reveses na economia do Japão[8]. Existe controvérsia se essas foram “décadas perdidaspara o Japão; mas é inegável que o país sofreu dificuldades econômicas traumáticas durante o período[9]. O terremoto, o tsunami e o acidente nuclear de Fukushima possivelmente agravaram ainda mais a Síndrome japonesa, pois os impactos foram econômicos, políticos e sociais.

Sociedade

A Síndrome japonesa é altamente especulativa, mas alguns indícios domésticos parecem revelar a existência dela. É o caso dos hikikomori, jovens japoneses absolutamente insulados em seus lares, incapazes de manter qualquer contato social[10]. Atribui-se o comportamento a um estresse social extremo, derivado da diferença entre as cobranças sociais e as possibilidades econômicas de satisfazer essas demandas[11].

Além das relações pessoais, as decisões profissionais e acadêmicas dos japoneses parecem também indicar a existência de uma “Síndrome de Galápagos”. Tornou-se notória a maneira como os profissionais do país tendem a recusar cargos e postos no exterior[12]. Ao mesmo tempo, os estudantes japoneses recusam-se em estudar fora[13].  Tanto empresas quanto indivíduos do Japão parecem seguir a tendência de enclausuramento.

Há outros indícios ainda. Um dos mais notórios é a decisão de alguns jornais japoneses de abandonarem a rede mundial de computadores[14]. Apesar desses fatos, o Japão ainda desfruta de aceitação em diversas partes do mundo[15]. Isso talvez explique por que os japoneses ainda não parecem mobilizados contra esse desafio. Observadores apontam que mudanças provavelmente ocorrerão quando se sentirem outra vez defasados pela concorrência internacional – como a da China, por exemplo, para quem o Japão perdeu o posto de segunda maior economia do mundo[16].

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ImagemA reclusão tornou-se parte do cotidiano japonês” (Fonte):

http://www.wired.com/wiredscience/2011/04/from-the-fields-hikikomori/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.thedailybeast.com/newsweek/2010/03/04/toyota-and-the-end-of-japan.html

[2] Ver:

http://yaleglobal.yale.edu/content/toyotas-stumble-not-metaphor

[3] Ver:

http://www.ign.com/articles/2013/04/25/no-nintendo-press-conference-at-e3-2013

[4] Ver:

http://en.rocketnews24.com/2013/05/30/galapagos-syndrome-is-nintendos-decision-to-skip-this-years-e3-trade-show-cause-for-concern/ 

[5] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/devin-stewart/is-japan-giving-up_b_490249.html 

[6] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/devin-stewart/slowing-japans-galapagos_b_557446.html

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2009/07/20/technology/20cell.html?_r=0 

[8] Ver:

http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2012/08/lost-decades

[9] Ver:

http://www.nytimes.com/2012/01/08/opinion/sunday/the-true-story-of-japans-economic-success.html?ref=opinion&pagewanted=all–

[10] Ver:

http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2013/07/130705_salud_japon_hikikomori_aislamiento_social_gtg.shtml

[11] Ver:

http://www.mindthesciencegap.org/2012/11/16/can-culture-create-mental-disease-the-rise-of-hikikomori-in-the-wake-of-economic-downturn-in-japan/

[12] Ver:

http://blogs.wsj.com/japanrealtime/2010/09/16/japans-workers-please-dont-send-me-abroad-ever/

[13] Ver:

http://www.timeshighereducation.co.uk/414933.article

[14] Ver:

http://www.nytimes.com/2010/04/09/technology/09paper.html

[15] Ver:

http://www.japantimes.co.jp/news/2012/05/15/reference/exporting-culture-via-cool-japan/#.UdiDfqwgjFw

[16] Ver:

http://madeinjapan.uol.com.br/2010/08/16/japao-perde-posto-de-segunda-economia-mundial-para-china/

 

About author

Bacharel em Comunicação Social, especialista e mestre em Relações Internacionais. Estagiou na Missão Diplomática Permanente do Brasil nas Nações Unidas (DELBRASONU - Nova Iorque, EUA). Desenvolve linha de pesquisa e carreira docente em Análise de Discurso sobre nacionalismo, desenvolvimento e segurança, com ênfase na América Latina. É escritor, articulista, cronista, conselheiro de cultura e membro de academias e de associações culturais.
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