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“Síndrome de Kessler” coloca Agência Espacial Russa em alerta

Desde que o homem começou a explorar o espaço sideral, uma enorme quantidade de equipamentos, com as mais variadas finalidades, foi lançada em orbita da Terra para suportar o avanço dessa empreitada tecnológica, o que, com o passar das décadas, gerou uma situação que vem preocupando agências espaciais de vários países, pois, a partir da crescente quantidade de restos orbitais* proveniente desses equipamentos, surgem ameaças que podem comprometer o futuro das viagens espaciais.

Segundo dados, mais de 500.000 pedaços de detritos, ou “lixo espacial”, são rastreados à medida que orbitam nosso planeta, todos eles viajando a velocidades de até 25 mil quilômetros por hora, rápido o suficiente para que um pedaço relativamente pequeno de material possa danificar um satélite, ou uma nave espacial conduzindo astronautas.

Logotipo da ROSCOSMOS – Agência Espacial Russa

O problema se agravou quando nações que fazem pesquisa aeroespacial, principalmente de cunho militar, começaram a realizar testes de armas antissatélite para desativar ou eliminar equipamentos espaciais para fins estratégicos, como foi o caso do teste conduzido pela Índia em março deste ano (2019), denominado Missão Shakti**, que destruiu um satélite desativado na órbita de 300 quilômetros da Terra. O efeito desse teste causou o aumento de detritos orbitais na casa dos milhares de fragmentos e acarretou críticas tanto da NASA (Agência Espacial Norte Americana) quanto da ROSCOSMOS (Agência Espacial Russa) que alertaram sobre o aumento do risco desses fragmentos colidirem com a Estação Espacial Internacional (ISS – International Space Station).

Para o diretor do Instituto de Astronomia Russa de Ciências, Boris Shustov, a quantidade de detritos espaciais já pode ter atingido o limiar da “Síndrome de Kessler, uma teoria desenvolvida na década de 1970, pelo consultor da NASA, Donald J. Kessler, que supõe que o volume de detritos espaciais na órbita baixa da Terra (entre 300 e 2.000 km da superfície terrestre) seria tão alto que objetos como satélites começariam a se chocar com o lixo, produzindo um “efeito dominó”, e gerando, assim, mais lixo.

Lixo espacial encontrado na Arábia Saudita

Essa teoria não foge da realidade quando comparada ao histórico de ocorrências relatadas pela NASA, algumas delas demonstradas a seguir, apresentando a profundidade do problema:

  • 1996 – Um satélite francês foi atingido e danificado por detritos de um foguete de mesma nacionalidade que havia explodido uma década antes;
  • 2007 – A China realiza teste de míssil antissatélite, que destruiu um satélite fora de serviço, acrescentando mais de 3.000 fragmentos na lista de detritos rastreáveis;
  • 2009 – Um satélite russo desativado colidiu e destruiu um satélite comercial de Iridium dos EUA em funcionamento. A colisão acrescentou mais de 2.000 pedaços de detritos rastreáveis para o inventário de lixo espacial.

O problema esta causando uma discussão global sobre a política espacial e a ROSCOSMOS quer propor a abertura de discussões envolvendo as potências espaciais para considerar a proibição de testes de armas antissatélite, para não agravar o problema do acúmulo de lixo, mas, além da questão militar, existem outros pontos que poderão sobrecarregar ainda mais essa questão que seria o aumento das missões espaciais já delineadas por diversas nações. Somente a SpaceX*** recebeu aprovação para lançar 12 mil satélites do seu programa Starlink, com o objetivo de criar uma rede mundial de internet. Conforme vem sendo apontado por especialistas, se nada for feito sobre o problema, as colisões se tornarão cada vez mais prováveis, o que significa que voos espaciais seriam quase impossíveis.

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Notas:

* Restos orbitais é uma referência a qualquer objeto feito pelo homem em órbita sobre a Terra que já não serve a uma função útil. Tais detritos incluem naves espaciais não funcionais, estágios de veículos de lançamento abandonados, detritos relacionados à missões e detritos de fragmentação.

** A missão Shakti foi empreendida para desenvolver armas antissatélite de alta potência (A-SAT). Com isso, a Índia juntou-se a outras três nações – EUA, Rússia e China, capazes de realizar tal operação. Isso dará um grande impulso para enfrentar os desafios de segurança que a Índia enfrenta, especialmente com o Paquistão. Com este míssil A-SAT, a Índia terá a capacidade de interferir com os satélites ou de se envolver em ataques diretos. O míssil A-SAT pode ser aéreo, marítimo ou terrestre. A partir de 1957 até os anos 80, os EUA e a Rússia lançaram testes de mísseis antissatélite, o que foi denominado como violação do tratado da ONU de 1967.

*** Empresa privada que projeta, fabrica e lança foguetes e naves espaciais avançados. Foi fundada em 2002, por Elon Musk, para revolucionar a tecnologia espacial, com o objetivo final de permitir que as pessoas possam viver em outros planetas. A empresa tem mais de 6.000 funcionários em vários locais, incluindo sua sede em Hawthorne, CA; instalações de lançamento na Cape Canaveral Air Force Station, FL; Centro Espacial Kennedy, FL; e a base da força aérea de Vandenberg, CA; um mecanismo de desenvolvimento de foguetes em McGregor, TX; e escritórios em Redmond, WA; Irvine, CA; Houston, TX; De chantilly, VA; e Washington, DC.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Estação Espacial Internacional” (Fonte): http://en.roscosmos.ru/202/

Imagem 2 Logotipo da ROSCOSMOS Agência Espacial Russa” (Fonte): https://www.roscosmos.ru/112/

Imagem 3 Lixo espacial encontrado na Arábia Saudita” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Detrito_espacial#/media/Ficheiro:Debris-star48_3.jpg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia de Empresas pela FEA-USP. Especialista em finanças (FP&A) com mais de 20 anos de experiência em empresas multinacionais na área de Planejamento Financeiro e Controladoria com certificação 6Sigma Green Belt. Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional.
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