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Como observa a analista Wendy Pearlman, críticos que comumente enfatizam a fragmentação da oposição síria deixam de observar o grau de unidade que foi necessário para que ela surgisse. Em um contexto de décadas de governo autoritário que “sufocava a sociedade civil e cultivava a desconfiança entre cidadãos[1], os sírios conseguiram, ainda assim, criar um ethos e uma infraestrutura de mobilização que permitiram a coordenação de protestos, a coleta e divulgação de informações, a prestação de ajuda humanitária e a formação de brigadas militares[1].

Entretanto, a falta de coesão da oposição tem sido alvo de críticas desde o primeiro ano de revoltas[2] e suas divisões “ideológicas, étnicas e sectárias” têm ganhado força na mídia com o desenrolar do conflito[3].

Dentre as muitas linhas que dividem os opositores, destaca-se, de um lado, os extremistas islâmicos, sobretudo o recente grupo jihadista “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS, na sigla em inglês), criado em abril de 2013[4], afiliado à al-Qaeda e “cujo futuro não é nem um pouco menos sectário, repressivo, e excludente que aquele do próprio regime Assad[5], nas palavras do especialista Steven Heydemann.

Mais uma vez de acordo com Pearlman, a presença de grupos como esse serviu de fundamento à hesitação estadunidense em oferecer maior apoio aos rebeldes, considerando-se que não haveria nenhuma garantia de que as “armas [enviadas] não acabariam ‘nas mãos erradas’[1]. Ao mesmo tempo, a acadêmica destaca que o próprio envolvimento internacional é também fonte de ruptura no movimento de oposição a Assad, uma vez que as diferentes agendas dos atores externos tendem a criar “novos interesses, objetivos e identidades àqueles já dividindo as fileiras do movimento[1].

Em um lado oposto ao do ISIS, a liderança da oposição que surgiu fora da Síria – i.e. a “Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias” e seu braço militar, o “Supremo Conselho Militar” – deixaram clara a dimensão democrática e republicana de seu projeto político[6]. Todavia, o escalonamento da violência dentro do país tem dificultado a legitimação da “Coalizão Síria” para os sírios vivendo sob a autoridade de grupos armados, sobretudo as minorias não-sunitas e curdas, as quais o discurso democrático da Coalizão não consegue convencer a abandonar o regime Assad e se juntar à revolta[7].

Por um lado, a “Coalizão Nacional” tem buscado trabalhar em parceria com o “Exército Livre da Síria” (“Free Syrian Army” – FSA), “que compreende 30 líderes de brigadas e batalhões lutando contra o regime de Assad por toda a Síria[8]. Em contrapartida, esse mesmo grupo, que inicialmente se beneficiou de deserções do Exército governamental, largamente composto por sunitas, mas com lideranças predominantemente alawitas[9], enfrenta agora um processo também de fragmentação, devido à recente declaração de dissidência contra o FSA por parte de 11 facções armadas e formação de uma “Aliança Islâmica” (“Islamic Alliance”), dedicada a implementar um estado islâmico na Síria[10].

E como se os fragmentos já não fossem demasiados, no último domingo, George Sabra, líder do “Conselho Nacional Sírio”, estabelecido em Istambul, ameaçou retirar seu grupo da “Coalizão Nacional Síria”, organização “guarda-chuva” sob a qual os diferentes grupos de oposição têm se reunido, caso ela participe das conversas de paz sobre a Síria, programadas para meados de novembro em Genebra[11].

O Conselho já havia afirmado que não se engajaria em conversas de paz com o regime de Assad, alegando que isto seria um retrocesso na Revolução[11]. À falta de unidade da oposição, o diálogo (com o regime) parece ter se transformado em ameaça, dificultando o próprio diálogo necessário à superação dessa fragmentação.

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ImagemA Coalizão Nacional Síria (reunida em Istambul, em 13 de setembro)” (Fonte):

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/10/10/rebel_fragmentation_in_syria_and_palestine

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/10/10/rebel_fragmentation_in_syria_and_palestine

[2] Ver:

http://www.economist.com/node/21528320

[3] Ver:

http://www.nytimes.com/2012/02/24/world/middleeast/syrian-opposition-is-hobbled-by-deep-divisions.html?adxnnl=1&pagewanted=all&adxnnlx=1381944126-pUba3RuwI75ZP1V6AWrPew

Ver também:

http://www.npr.org/2013/05/29/187105070/deep-difference-stall-talks-of-syrian-opposition-council;

Ver também:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/09/18/rebel_vs_rebel_syria_jihadists_groups;

Ver também:

http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/20/syrian-rebel-s-bigtentstrategycollapsing.html

[4] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-24179084

[5] Ver HEYDEMANN, Steven. Syria and the Future of Authoritarianism. Journal of Democracy, v. 24, n. 4, out. 2013, pp. 59-73. Disponível em:

http://muse.jhu.edu/journals/journal_of_democracy/v024/24.4.heydemann.html, p. 68.

[6] Ver:

http://www.etilaf.org/en/about-us/goals.html

[7] Ver HEYDEMANN, op. cit., p. 68 e 69.

[8] Ver:

http://www.etilaf.org/en/press/president-of-the-syrian-coalition-meets-leaders-of-the-free-syrian-army.html

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-15798218

[10] Ver:

http://www.aawsat.net/2013/10/article55319313;

Ver também:

http://articles.washingtonpost.com/2013-09-25/world/42378372_1_opposition-coalition-rebel-obama-administration

[11] Ver:

http://www.aawsat.net/2013/10/article55319193

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About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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