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Smartcity e Coronavírus, lições de uma pandemia

A pandemia causada pelo Covid-19 já soma mais de 1 milhão de contagiados e milhares de falecidos em todo o planeta. Um episódio trágico na história da humanidade que sem dúvidas marcará as próximas décadas, seja pelo impacto social, seja pelo impacto político ou econômico.

Diante de cenas como vistas na Itália, com caminhões de féretros desfilando em uma macabra marcha fúnebre, ou de convalescidos em plenas ruas do Equador, aparece o contraste, com imagens de animais silvestres circulando por cidades vazias, águas transparentes em grandes urbes e a visão no horizonte do Himalaia, a centenas de quilômetros, após esta montanha estar oculta nos últimos 30 anos devido à contaminação atmosférica. Lições de um mundo dignas de um filme post-apocalíptico ou da gênese de um novo episódio na nossa história.

Mesmo com o negacionismo presente em líderes tais como Boris Johnson, Donald Trump, Shinzo Abe e Jair Bolsonaro, que aos poucos foram cedendo, seja por fruto das pressões sociais e políticas, ou graças ao reflexo da própria realidade, vemos como a civilização e todas as construções sociais advindas dos diferentes modelos de pacto social e sistemas culturais são um frágil castelo de areia, assim como o sistema logístico e econômico internacional.

A mão invisível do mercado precisou em muitos cenários do pulso firme do Estado, pois, conforme vem sendo observado internacionalmente por vários analistas, a tragédia não entende de sistemas bancários nem modelos financeiros, também não se decanta por ideologias ou lados partidários, e nem por fronteiras desenhadas em um mapa.

Em um mundo onde mais de 80% da população se concentra nas cidades, o papel da gestão local ganhou destaque, seja aplicando medidas de confinamento e controle da epidemia, seja realizando campanhas a favor da atividade econômica, ainda com a contrapartida social e moral perante as possíveis perdas humanas.

Nesse contexto, a inteligência das cidades e a racionalização de seus processos tiveram um papel fundamental no sucesso ou fracasso de suas gestões diante da crise, e deixaram em evidência a necessidade de estabelecer processos inteligentes no gerenciamento dos espaços urbanos. Assim mesmo, diversas são as lições que ficaram para a posterioridade.

Camiões transportando falecidos pelo Covid-19 na Itália

Em Madri por exemplo, antes mesmo da declaração oficial do Governo Espanhol do Estado de Alarme, a Prefeitura já havia ordenado o fechamento das escolas, cancelado eventos públicos, e começado a articular e preparar todo seu sistema sanitário, ainda assim, a medida não levou em consideração as movimentações dos habitantes e suas dinâmicas migratórias, fazendo com que diversos cidadãos levassem o vírus a outras cidades em sua fuga desde Madri. A inteligência da capital espanhola foi o suficiente para preparar o sistema de saúde e as atividades econômicas dentro da cidade, mas falhou no que se refere ao transporte e mobilidade dentro da área de influência da mesma.

Por outro lado, a capital financeira Italiana, Milão, fez uma campanha para manter a atividade econômica tomando medidas simples de distanciamento social, o que não se mostraram efetivas e, hoje, amarga um dos maiores números de contágios na Europa.

Em Nova York, as autoridades locais, em confronto aberto com o presidente Trump, não hesitaram em tomar medidas de distanciamento local e confinamento, porém, a falta de um sistema público de saúde eficiente e a elevada densidade populacional transformaram a “capital do mundo” em um dos principais focos da doença.

Estes e outros exemplos no mundo inteiro demonstram a importância de gerar espaços inteligentes e principalmente a necessidade de integrar as diferentes dimensões que compõem a realidade urbana.

De nada serve ter um sistema de gerenciamento sanitário eficiente sem uma integração com outros sistemas, tais como transporte público, política local, logística ou segurança. Assim mesmo, a centralização do comando derivada do Estado de Alarme ou Emergência decretado em diversos países, como acontece na Espanha, por um lado facilitou o gerenciamento da crise em âmbito nacional, porém gerou assimetrias em relação às implicações locais, produzindo a falta de equipamentos ou a concentração dos mesmos, fomentando, assim, um atendimento desigual perante diferentes cenários dentro da nação.

Hospital habilitado no centro de exposições de Madrid

Porém quais são as ferramentas dentro do âmbito das cidades inteligentes que fizeram ou poderiam fazer a diferença? Assim como o termo Smartcity (Cidade Inteligente) é amplo e composto de diferentes óticas e dimensões conforme a realidade local, suas aplicações são igualmente abrangentes. Sem embargo, uma série de preceitos comuns aos diversos projetos de Smartcity podem ser usados, sendo eles:

Interoperabilidade de sistemas: Para uma correta gestão do espaço urbano e os diferentes níveis de poder que o compõe, a integração dos sistemas de informação possibilita uma melhor comunicação e gestão dos recursos, assim como atende às necessidades locais, regionais, estaduais e até mesmo nacionais. Há um contínuo fluxo de informação referente a recursos, projetos, medidas e políticas que devem dialogar entre si.

Centro de Operações Integradas: Um centro capaz de gerir diversas informações, tal como existe no Rio de Janeiro, com maior capacidade, fomentando a colaboração e adequação à realidade local.

SmartHealth: ou Sistema de Saúde Inteligente, capaz de gerenciar não somente a evolução, mas de equilibrar o uso dos recursos de modo preditivo, evitando uma possível saturação.

Smartmobility: A mobilidade, embora reduzida, deve ser controlada, para reduzir o impacto ou o uso desnecessário de recursos em um lado da cidade enquanto o outro permanece negligenciado.

TIC: Soluções como trabalho ou educação à distância só são possíveis e aplicáveis mediante a integração digital da cidadania e a disponibilização de recursos, tais como o Wifi gratuito em cidades com esse dispositivo.

Inteligência e integração são conceitos chaves para as Smartcities e esta crise revelou não somente as vantagens de racionalizar os espaços urbanos, mas, também, o longo trabalho que ainda precisa ser feito, pois esta pandemia com o tempo passará, assim como outras ao longo da história e, como esta, várias ainda podem surgir.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 SmartHealth” (Fonte): https://www.gradiant.org/wp-content/uploads/2019/03/eSalud_02_cabecera.jpg

Imagem 2 Caminhões transportando falecidos pelo Covid19 na Itália” (Fonte): https://mk0ultimasnoticeq5hf.kinstacdn.com/wp-content/uploads/2020/03/5e7382a759bf5b2f295451c9.jpg

Imagem 3 Hospital habilitado no centro de exposições de Madrid” (Fonte): https://www.que.es/wp-content/uploads/2020/03/ifema-coronavirus-640×480.jpeg

About author

Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.
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