NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

A virada iraniana

Ontem, terça-feira, 24 de setembro, Hassan Rouhani discursou nas “Nações Unidas[1] dando continuidade às muitas expectativas e desconfianças que rondam o Presidente iraniano desde que assumiu o poder em agosto desse ano*.

Rouhani, o protegido do ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, e aliado do ex-presidente Mohammad Khatami, forma, juntamente com os citados ex-presidentes, um grupo político que define seus interesses em termos de melhores relações com o Ocidente, sobretudo com os “Estados Unidos”. É essa facção – que, no passado, ajudou a tirar o país da guerra com o Iraque, que se manteve fora das duas guerras do Golfo, e apoiou os “Estados Unidos” na derrubada do Talibã – que agora busca reverter o quadro de isolamento no qual o Irã se encontra[2].

Por outro lado, a bancada conservadora, liderada pelo Líder Supremo Ayatollah Khamenei e pela “Guarda Revolucionária[3], se atém a um anti-americanismo envolto em uma lógica da sobrevivência: o envolvimento iraniano na empreitada estadunidense no Afeganistão, a seus olhos, só tornou Teerã mais vulnerável, após o discurso de Bush sobre o “eixo do mal”, enquanto que a inflexível postura concernente a seu “Programa Nuclear” teria trazido poder e status ao país[2].

No entanto, diversos grupos políticos passam a desafiar a visão política conservadora a partir da percepção de que a ideologia empregada durante o governo de Ahmadinejad enfraqueceu o país, ao mesmo tempo que as sanções internacionais enfraqueceram a economia e a classe média iranianas[2], e mesmo a linha-dura passa a reconhecer que a anterior “política de resistência” só trouxe ao Irã mais sanções, levou o presidente sírio Bashar al-Assad à beira de um desastre e garantiu a perda de apoio popular com que o Hezbollah contava na região[4].

Apesar de o Irã ter conhecidamente enviado ajuda ao governo de Assad, que tem como aliado regional o novo presidente iraniano, este, por sua vez, tem sido percebido com uma nova postura, pois tem condenado repetidamente o uso de armas químicas na Síria, apesar de não tê-lo atribuído diretamente ao governo sírio. Essa é uma questão sensível no Irã, que sofreu dezenas de milhares de perdas em função do uso de diversas armas químicas pelo Iraque no anos 1980[5].

Como destaca o especialista Mohammad Ayatollahi Tabaar[2], o conflito sírio, em realidade, vem sendo utilizado pelos “Estados Unidos” e pelo Irã como um meio de sinalizar intenções: enquanto a administração de Obama tenta mandar um recado ao programa nuclear iraniano, por intermédio de um gerenciamento da crise síria, Rouhani, por outro lado, procura, por meio da defesa de uma solução diplomática para a Síria, trazer a questão nuclear no Irã para o diálogo político[2].

Mas a postura em relação à Síria não é o único indício de uma mudança de política externa. A revista “Foreign Policy[6] e o “National Iranian American Council[7] apontam diversos outros sinais que permitem à comunidade internacional levar a sério o engajamento iraniano quanto a um possível “Acordo Nuclear”. Dentre eles: perspectivas de uma censura virtual mais branda[8]; a soltura de seis eslovacos acusados de espionagem[9], de 11 proeminentes presos políticos[10] e de dois líderes da oposição, até então em prisão domiciliar[11]; o desejo de um feliz ano novo aos judeus de todo o mundo[12], que são apenas alguns dos recentes feitos de Rouhani, os quais reforçam a credibilidade do seu discurso de abertura política, acompanhado da autoridade conferida ao “Gabinete Presidencial” no tocante às negociações nucleares[7].

Mais importante ainda, como destaca o acadêmico Patrick Lawson[4], mesmo Khamenei, o Líder Supremo, parece estar disposto a dar um fim ao impasse nuclear: em encontro com a “Guarda Revolucionária”, em 17 de setembro, Khamenei lhes falou sobre uma “flexibilidade heroica”, sendo tal postura “boa e necessária em certas situações, contanto que nos atenhamos a nossos princípios[13].

Ainda assim, alguns analistas internacionais, como Raymond Tanter[14], demonstram desconfiança em relação ao discurso iraniano, refletindo parcialmente o sentimento da comunidade internacional. Acompanhando o raciocínio de Stephen Walt[15], no entanto, pode-se destacar que, pouco após ter sido eleito, Rouhani já era definido pelos conservadores nos “Estados Unidos” e em Israel como “um lobo vestido de ovelha” e, mesmo depois que o novo presidente iraniano anunciou uma série de medidas conciliatórias, céticos como o primeiro-ministro Israelense Benjamin Netanyahu responderam com uma proposta de novas condições sine qua non[16]. No entanto, a virada iraniana é exatamente a resposta que os “Estados Unidos” e a “União Europeia” deveriam esperar ao imporem sanções e ameaçarem usar a força[15].

Insistir na desconfiança da política de Rouhani só reforça o antigo discurso (de Ahmadinejad, inclusive) de que as pressões internacionais sobre o “Programa Nuclear” iraniano escondem um objetivo maior, como uma mudança de regime[15]. Tem-se, assim, também uma virada de jogo: agora é a sinceridade dessas lideranças políticas ocidentais que é posta à prova.

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* Apesar da referência, a presente nota foi escrita às vésperas do mencionado discurso, ocasião na qual se inspirou este artigo.

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ImagemO presidente do Irã, Hassan Rouhani” (Fonte):

http://walt.foreignpolicy.com/posts/2013/09/20/is_rouhani_sincere_iran_nuclear_deal

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-24218272

[2] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/09/12/iran_s_pragmatic_turn

[3] A fim de obter algum esclarecimento quanto ao sistema político iraniano, ver:

http://www.ceiri.net/cnp/eleicoes-no-ira-entre-a-teocracia-e-o-republicanismo/

[4] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/09/19/a_window_opens_in_tehran_khamenei_iran_nuclear_deal

[5] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/09/19/iran_at_the_un_from_khamenei_to_rouhani

[6] Ver:

http://blog.foreignpolicy.com/posts/2013/09/19/20_signs_iran_is_serious_about_a_nuclear_deal

[7] Ver:

http://www.niacouncil.org/site/News2?page=NewsArticle&id=9757&security=1&news_iv_ctrl=-1

[8] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2013/jul/02/iran-president-hassan-rouhani-progressive-views

[9] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2013/sep/02/iran-frees-six-slovaks-accused-spying

[10] Ver:

http://www.nytimes.com/2013/09/19/world/middleeast/iran-frees-political-prisoners-on-eve-of-presidents-visit-to-us.html?ref=iran&_r=0

[11] Ver:

http://www.theguardian.com/world/iran-blog/2013/sep/11/hopes-iranian-opposition-leaders-release

[12] Ver:

https://twitter.com/HassanRouhani/status/375278962718412800/photo/1

[13] Ver também:

http://worldnews.nbcnews.com/_news/2013/09/18/20561148-irans-president-rouhani-we-will-never-develop-nuclear-weapons?lite

Ver também:

http://nation.foxnews.com/2013/09/17/iran%E2%80%99s-ayatollah-khamenei-calls-%E2%80%9Cheroic-leniency%E2%80%9D-international-diplomacy

[14] Ver:

http://shadow.foreignpolicy.com/posts/2013/09/23/smooth_talking_rouhani_trash_talking_ahmadinejad_different_style_same_substance

[15] Ver:

http://walt.foreignpolicy.com/posts/2013/09/20/is_rouhani_sincere_iran_nuclear_deal

[16] Ver:

http://www.middleeastmonitor.com/news/middle-east/7400-netanyahu-announces-four-conditions-for-iran

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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Transformações na política iraniana

Contrariando as expectativas de alguns especialistas[1], o novo Presidente do Irã”, Hassan Rouhani, cujo governo foi inaugurado no dia 3 deste mês, parece apresentar mudanças na condução da política externa do país. Por outro lado, a previsão era de que Rouhani tentasse modificar a política interna no Irã, sobretudo no que concerne o respeito aos Direitos Humanos”, a fim de aliviar as pressão internacional sobre seuPrograma Nuclear[1].

Ainda de acordo com os analistas, a questão dos “Direitos Humanos” figuraria, portanto, como a arena ideal para a demonstração de uma nova postura interna, pois, à diferença de problemas de outra natureza, frequentemente atribuídos ao Ocidente*, o tratamento que o Governo confere aos seus próprios cidadãos, sobretudo “torturando e matando iranianos sem o devido processo [legal]”[1], dificilmente pode ser responsabilizado por influências externas[1].

Nesse contexto em que a mudança da política interna aparece como ferramenta para reduzir o descontentamento internacional, o recente anúncio do Presidente defendendo uma política externa sem slogans agressivos[2] se apresenta como mais uma peça no jogo. Alegando ser da vontade daqueles que o elegeram uma mudança nas relações exteriores do país, Rouhani afirma estar buscando um distanciamento do discurso adotado por seu predecessor, Mahmoud Ahmadinejad[2][3].

Em realidade, essa postura não é de total surpresa para a comunidade internacional, que, desde sua posse, esperava que, enquanto ex-negociador nuclear, Rouhani reduzisse as pressões externas sobre o “Programa Nuclear” iraniano ao dar a devida atenção às preocupações internacionais[4].

Ainda assim, aquele que observar a política iraniana (externa e interna) não deve deixar de considerar que essas não são mudanças de princípio, mas mudanças de método. Nas palavras de Rouhani, “[N]ós vamos defender energicamente os nossos interesses nacionais, mas isso tem que ser feito adequadamente, com precisão e de forma racional[3].

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* Como, por exemplo, a situação econômica do Irã, que é pelo governo justificada como resultado das sanções impostas pela comunidade internacional.

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Imagem (Fonte):

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/08/201381845511522757.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://shadow.foreignpolicy.com/posts/2013/08/05/rouhanis_head_fake

[2] Ver:

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/08/201381845511522757.html

[3] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23744267  

[4] Ver:

http://edition.cnn.com/2013/08/04/world/meast/iran-president/index.html

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O “Dossiê Nuclear” e as tensões entre Israel e o Irã

O “Programa Nuclear Iraniano” começou na década de 1950 e a sua origem remonta ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi. Inicialmente, ele fez parte do programa “Átomos para a Paz”, tendo recebido a ajuda dos Estados Unidos, pois o Irã integrava o grupo de países que assinaram o “Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares[1].

Após a “Revolução Islâmica”, em 1979, o Projeto caiu no esquecimento durante um tempo mas, depois, foi retomado sem o auxílio do Ocidente. Hoje, o “Programa Nuclear” é administrado pela “Organização de Energia Atômica do Irã”, tendo recebido um novo impulso a partir de 1995, quando o país fez um acordo com a Rússia, para concluir a usina nuclear “Bushehr I”, o que não se efetivou. Porém, a partir de 2005, com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, começaram as preocupações de Israel e do Ocidente em relação ao programa iraniano, embora o Irã sempre tenha afirmado que tem objetivos pacíficos e civis, isto é, que a energia nuclear visa ser aplicada na Medicina e na produção energia elétrica.