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Papa discursa sobre o clima e religião na África, mas não trata das questões de gênero

Do apelo a “práxis revolucionária” feita aos jovens voluntários da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em 2013, às missas diárias aos servidores do Vaticano, o Papa Francisco tem deixado claro que o seu papado tem “sido dos pobres” e “para os pobres”. Suas visitas internacionais carregam consigo a mesma simbologia: Cuba, Bolívia, Equador, Filipinas e, mais recentemente, na última semana, Quênia, Uganda e República Centro-Africana, foram todos palcos de discursos de um papa do “fim do mundo” compromissado com o estado de vida dos habitantes das outras tantas periferias mundiais.

Alguns especialistas afirmam a existência da herança da Teologia da Libertação nas atuais práticas do Papa Francisco, apesar de não haver uma adoção oficial sua a esta corrente, combatida fortemente por Joseph Ratzinger e pela ortodoxia católica durante a segunda metade do século passado.

A Teologia da Libertação, que no Brasil tem o nome de Leonardo Boff como uma das principais referências, tornou-se uma importante vertente no pensamento católico latino-americano no século passado, visando posicionar a pobreza como o ponto central da Igreja Católica. Trazia consigo uma necessidade binária de disciplina ascética e compromisso real de seus seguidores em melhorar a condição de vida de milhares de latino-americanos. Assim, a mera semelhança entre as atuais práticas ascéticas do Papa Francisco e aquelas do Santo que empresta o seu nome a Jorge Bergoglio é mais profunda do que se parece.

Papa Francisco, por sua vez, estende este discurso a outras esferas, que ultrapassam a esfera do econômico, “abraçando” também indivíduos que vivem em situações de vulnerabilidade devido a questões ambientais ou étnicas. Antes mesmo de se tornar Papa, Jorge Bergoglio já dava sinais de adotar tais questões como pontos principais em sua agenda religiosa. Por exemplo, ele liderou o encontro de bispos latino-americanos em Aparecida, em 2007, donde redigiu-se um documento oficial com vistas a uma renovação da Igreja Católica e um convite aos seus sacerdotes a trabalharem mais de perto com as questões ambientais, migratórias e com a crescente desigualdade entre ricos e pobres.

Tal extensão do discurso papal se fez clara em sua viagem à África, onde questões como as mudanças climáticas e as guerras religiosas deram o tom de sua visita. “Temos diante de nós uma questão que não pode ser ignorada: ou melhoramos a atual situação do meio ambiente ou a pioramos”, afirmou o Papa Francisco, em discurso no escritório das Nações Unidas em Nairóbi, no Quênia, na última quinta-feira (26 de novembro). O discurso claramente foi proclamado com vistas à COP21, onde líderes de 195 países se encontrarão em Paris para firmar uma meta de redução na emissão de gás carbônico.

Em outros momentos dessa viagem, prevaleceu a defesa pelos direitos religiosos, tendo em vista os sérios conflitos que assolam o continente, principalmente na República Centro-Africana, onde muçulmanos e católicos guerreiam desde 2013. Sobre este fato, o Papa Francisco comentou que cabe aos líderes religiosos do continente pregarem a paz, ao invés de incitarem conflitos entre povos com distintas crenças: “O importante é que nós [líderes religiosos] sejamos profetas da paz, que convidem outras pessoas a viverem na paz, na harmonia e em respeito mútuo”.

Entretanto, de acordo com analistas, a não menção direta do Papa Francisco às questões de gênero faz do seu discurso pautado nas minorias sociais um discurso incompleto. Isto porque a ausência de direitos civis a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais reduz as oportunidades de vida destes indivíduos, levando-os à marginalização social.

O Governo de Uganda, recentemente, foi criticado por organizações defensoras dos direitos humanos devido a medidas que reduzem a liberdade sexual de seus habitantes, como a medida que instaura a homossexualidade como crime, cuja aprovação está cada vez mais perto. Dessa forma, Uganda haveria sido um palco mais que apropriado para defender os direitos dos gays e conduzir a Igreja Católica ao tão esperado “processo de modernização”, o qual, de acordo com observadores, parte dos católicos espera que Francisco o faça.

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Imagem (FonteWashington Times):

http://www.washingtontimes.com/news/2015/sep/10/vatican-officially-confirms-pope-francis-visit-to-/?page=all