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Teste de míssil pelos EUA agrava tensões com Moscou

No dia 18 de agosto (2019), os Estados Unidos (EUA) realizaram um teste de lançamento de míssil de cruzeiro. O projétil que foi lançado da ilha de San Nicolás, na Califórnia, percorreu mais de 500 quilômetros e terminou seu trajeto ao cair no mar. De acordo com o Pentágono*, “os dados coletados e as lições aprendidas com esse teste auxiliarão o Departamento de Defesa no desenvolvimento de capacidades futuras de alcance intermediário”.

Embora tenha sido apenas um teste de armamento, a ação norte-americana gerou controvérsias. No começo de agosto (2019), os EUA retiraram-se indefinidamente do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês). Esse Acordo foi firmado em 1987 pelos antigos líderes Ronald Reagan – dos EUA – e Mikhail Gorbachev – da extinta União Soviética. Previa-se a eliminação e a proibição do desenvolvimento e implantação de mísseis balísticos e de cruzeiro, sejam eles nucleares ou não, em que o alcance estaria entre 500 e 5.500 quilômetros. Caso o Tratado ainda estivesse em vigor, o teste realizado com o míssil seria uma violação ao INF.

Em vista da situação, China e Rússia convocaram uma sessão extraordinária no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Os representantes dos governos chinês e russo acusaram os EUA de estarem incitando o início de uma nova corrida armamentista e de terem violado o INF quando ainda estava em vigência. Essa última acusação leva em conta que o teste com o míssil foi realizado apenas 3 semanas após a saída definitiva do Acordo, portanto, ele foi planejado e arquitetado há muito tempo.

Emblema do Conselho de Segurança das Nações Unidas

A corrida armamentista também é uma preocupação. O único Tratado que ainda regula o uso e fabricação de armas nucleares é o Novo START entre Rússia e EUA, mas esse está para expirar em 2021. Por enquanto, não há nenhuma certeza da renovação ou extensão de sua vigência. Caso esse Tratado também seja descontinuado pelas partes, os arsenais nucleares americanos e russos não seriam verificáveis e nem limitados juridicamente, pela primeira vez, desde 1972. Com a falta de Acordos dessa natureza, a existência de uma nova corrida armamentista é dada como quase certa pelos especialistas da área. Porém, agora, poderia acabar envolvendo não só os EUA e a Rússia, mas também a China.

Durante a sessão no CSNU, o vice-embaixador da Rússia na ONU, Dmitry Polyanskiy, afirmou “da nossa parte, não seremos os primeiros a adotar tais medidas. Entretanto, considerando que nossos colegas americanos estão claramente esfregando as mãos e querendo exibir seus músculos, é possível que essa situação […] possa ocorrer em breve”.

Em contrapartida, o embaixador interino dos EUA na ONU, Jonathan Cohen, rebateu as acusações declarando que a Rússia vinha violando o INF há muito tempo. Segundo ele, “a Federação Russa e a China ainda desejam um mundo onde os Estados Unidos exercitem o autocontrole enquanto eles continuam seu acúmulo de armas sem abrandamento e sem pudor. Os testes dos EUA para desenvolver capacidades convencionais de lançamento de solo não são provocativos ou desestabilizadores, nós não ficaremos inertes”.

Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em pronunciamento

Países europeus, aliados da OTAN, destacaram seu apoio ao posicionamento norte-americano. A China, por sua vez, limitou-se a declarar que não tem qualquer interesse nenhum em participar de Acordo de controle de armamento com os EUA, e nem com a Rússia. O Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, realizou um pronunciamento no dia 23 de agosto (2019) prometendo uma resposta simétrica ao Governo norte-americano. De acordo com o líder, “ordeno os ministérios russos da Defesa e das Relações Exteriores que examinem o nível da ameaça para nosso país pelos atos dos Estados Unidos, e que sejam adotadas medidas exaustivas para preparar uma resposta simétrica”.

Observadores internacionais apontam esse período das relações internacionais como a mais delicada desde a época da Guerra Fria. De acordo com especialistas, uma nova corrida armamentista gerará consequências irremediáveis para a estabilidade global. Acordos entre EUA e Rússia apenas não convém mais com a realidade atual, é preciso que outros países aceitem participar de um novo pacto global para controle e regulação de seus arsenais.

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Nota:

* O Pentágono é a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Teste de lançamento de um míssil balístico intercontinental nuclear dos Estados Unidos” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/60/Minuteman3launch.jpg/800px-Minuteman3launch.jpg

Imagem 2Emblema do Conselho de Segurança das Nações Unidas” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Emblem_of_the_United_Nations.svg/800px-Emblem_of_the_United_Nations.svg.png

Imagem 3Presidente da Rússia, Vladimir Putin, em pronunciamento” (Fonte): http://static.kremlin.ru/media/events/photos/big/ouFiomqA0CC8Cj5Mv91WBA1U2sGjqn1z.jpg

About author

Bacharela em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas, ambas pelas Faculdades de Campinas (FACAMP). Participou da Newsletter do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERI) da FACAMP como redatora e corretora de artigos. Fez sua tese de conclusão de curso sobre as relações diplomáticas entre a Rússia e os Estados Unidos no pós Guerra Fria. Tem grande paixão pela escrita e por assuntos relacionados à Segurança Internacional e Diplomacia.
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