AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Transporte aéreo e turismo latino-americanos afetados pela pandemia

A Latam, maior companhia aérea da América Latina, solicitou ajuda financeira, pouco depois de ter entrado com um pedido de recuperação judicial, para evitar falência. O transporte aéreo e a indústria do turismo estão sofrendo os efeitos da pandemia da Covid-19, enquanto as instituições adotam medidas para evitar o colapso do setor.

A falta de vacina, de medicamento e de tratamento específico para o novo coronavírus suscitaram a adoção das chamadas “intervenções não farmacológicas”, sendo mais conhecidas as seguintes: quarentena, isolamento, distanciamento social, shutdown e lockdown. Todas restringem o deslocamento de pessoas e, por conseguinte, diminuem a demanda por transportes, hospedagem e outros serviços da cadeia de turismo, seja de lazer, de negócios ou de outras finalidades.

De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (International Air Transport Association, ou IATA, em inglês), no ano de 2020, haverá redução de 49% na demanda por voos na América Latina, em relação a 2019, com perda de receita de US$ 18 bilhões (cerca de R$ 98,66 bilhões ao câmbio de 26/6). Além disso, a IATA prevê uma redução aproximada de 6.380 postos de trabalho, sendo 4.920 diretos e 1.460 indiretos.

Uma matéria do site Melhores Destinos indica 10 companhias aéreas que correm risco de falência. Entre elas, a Avianca da Colômbia, segunda maior empresa aérea latino-americana, e que solicitou recuperação judicial em 10/5/2020. Convém esclarecer que a empresa colombiana, controlada pela Avianca Holdings, é distinta da brasileira Ocean Air Linhas Aéreas, que mantinha um contrato de uso do nome de fantasia Avianca, e que se encontra em recuperação judicial desde dezembro de 2018.

A mesma matéria apresenta quatro fatores que podem garantir a sobrevivência de empresas aéreas na crise atual: apoio governamental; a situação financeira pré-crise; reação dos gestores perante os desafios; retorno da demanda aos níveis anteriores. A ajuda do governo pode ser na forma de concessão de empréstimos, de subsídios, redução de impostos ou dilatação de prazos de pagamentos, dentre outras. Contas bem equilibradas antes da pandemia ajudam a suportar o período crítico, e a ação rápida e eficaz da alta direção pode minimizar os prejuízos. Já o retorno da demanda a patamares anteriores é uma grande incógnita.

Em depoimento à Revista Exame, o especialista Felipe Bonsenso explica que as aéreas têm baixos níveis de capital de giro e custos fixos elevados porque costumam arrendar aeronaves cujo leasing tem que ser pago mensalmente. A Avianca Holdings conseguiu um empréstimo de US$ 250 milhões (em torno de R$ 1,37 bilhão, ao câmbio de 26/6/2020), condicionado ao afastamento do CEO que estava no comando. O especialista crê que a empresa tem mais chances de recuperação porque não deverá haver pressão para retomada dos aviões, por inexistir demanda no momento que possibilite aos proprietários realocarem os equipamentos.

Em 26 de maio, a Latam entrou com um pedido de recuperação judicial nos  Estados Unidos, envolvendo as filiais naquele país, no Chile, na Colômbia, no Equador e no Peru. Segundo a Revista Veja, “A companhia aérea recorreu à Corte americana porque é lá que estão os seus principais credores, e, consequentemente, onde corre o maior risco de ter um pedido de falência”. O pedido não foi feito para as afiliadas na Argentina, Brasil e Paraguai, em razão da situação financeira destas ser distinta.

A Latam obteve suporte financeiro de acionistas como as famílias Cueto e Amaro e com a Qatar Airways.  A empresa poderá obter um valor de até US$ 900 milhões (cerca de R$ 4,93 bilhões, também ao câmbio de 26/6/2020) em financiamento na modalidade DIP (Debtor-In-Possession, em inglês), que dá prioridade aos credores no pagamento das dívidas. Logo após o pedido, a empresa teve sua nota rebaixada em 6 graus na escala de risco da agência Moody’s. A Agência vê com preocupação a situação do setor e estima que a demanda não irá se igualar à de 2019 antes de 2023.

O transporte aéreo integra a cadeia do segmento de turismo, também afetado pela pandemia. A Organização Mundial do Turismo (OMT, ou UNWTO, em inglês) lançou no Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6) de 2020 o Programa One Planet Vision for the Responsible Recovery of the Tourism Sector, um chamamento a práticas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (OSD) e ao Acordo de Paris. O Programa recomenda, aos governos, 6 linhas de ação para o turismo sustentável no pós-pandemia: 1) saúde pública; 2) inclusão social; 3) conservação da biodiversidade; 4) ação climática; 5) economia circular;  e 6) governança e finanças.

Aeronaves paradas no pátio

No relatório Economic Performance of the Airline Industry, de junho/2020, a IATA afirma que 2020 será o pior ano da história da  aviação civil e que as perdas irão perdurar em 2021, ainda que em menor extensão. Em nota publicada no site, em 15/6/2020, a Associação alerta para a situação difícil das aéreas latino-americanas e caribenhas e pede ação dos governos. Adverte ainda que o setor contribuiu, antes da pandemia, com US$ 167 bilhões (cerca de R$ 915,35 bilhões, conforme a mesma cotação) para o PIB da região e corre risco de redução superior a 46%.

O volume de passageiros, segundo a nota, reduziu-se em média 96% no mês de abril de 2020, o que põe em risco metade dos 7,2 milhões de empregos do setor. A IATA conclama os governos a suspenderem as restrições de viagens e que, para maior segurança, sigam as orientações da International Civil Aviation Organization (ICAO). Uma apresentação de slides de 11/6/2020 da IATA mostra uma lista de 15 países latino-americanos, dos quais 8 estão com restrições a voos internacionais: Argentina, Bahamas, Colômbia, Honduras, Ilhas Cayman, Panamá, Peru e República Dominicana.

No meio da crise, enquanto grandes empresas passam por dificuldades, as low cost apostam na sobrevivência e na concorrência de preços quando a “turbulência” passar. Assim afirmam os CEO da Viva Air (Colômbia), JetSMART (Chile-Argentina), da SKY (Chile), Volaris e Interjet (ambas do México), da Wingo (Colômbia) e da Flybondi (Argentina), que estão se valendo da vantagem dos custos mais enxutos e maior flexibilidade. Não será surpresa se no novo normal a “seleção natural” do mercado fizer sucumbir algumas grandes e famosas e a ascender algumas pequenas e resilientes, ilustrando a “sobrevivência do mais apto”.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Interior de aeronave Boeing 787Dreamliner” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Boeing_787#/media/Ficheiro:Boeing_787-8_Dreamliner,_Aeromexico_JP7669417.jpg

Imagem 2 Aeronaves paradas no pátio” (Fonte):

https://airlines.iata.org/sites/default/files/event_images/web_planes_iStock-625887532.png

About author

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.
Related posts
AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O Chile e a polêmica sobre saques em fundos de pensão

ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO CEIRI NEWS DE 12 DE OUTUBRO

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Representatividade africana no Conselho de Segurança

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!