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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Turquia: ataques militares contra o PKK e possíveis novas eleições parlamentares

Como mencionado em nota analítica no CEIRI NEWSPAPER na semana passada[1], em julho deste ano (2015), a Turquia se juntou à guerra contra o Estado Islâmico (EI) ao atacar suas tropas na fronteira turco-síria[2]. Entretanto, analistas como Lina Khatib, escrevendo para a Carnegie Endowment[3], e Michael J. Koplow, da Foreign Affairs[4], apontam que, embora o EI constitua uma verdadeira ameaça à Turquia, a guerra contra o grupo islâmico serve para acobertar ataques contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em inglês), inimigo de longa data do Governo turco e que, ao mesmo tempo, tem estado na linha de frente contra o Estado Islâmico.

Demonstrando a situação, na imagem abaixo tem-se a região da fronteira entre Turquia, Síria e Iraque. Em azul estão as áreas habitadas por curdos. O símbolo Screenshot 2015-08-19 at 23.06.19 marca áreas de ataques aéreos turcos contra o PKK, entre 24 de julho e 3 de agosto*. Os pontos vermelhos marcam algumas áreas de violência entre Governo turco e o PKK desde março de 2013.

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De fato, alguns dados dão suporte a esta análise da manobra turca contra o PKK. Como relata a rede de notícias focada em crises humanitárias, IRIN, desde o início da campanha turca contra o EI, apenas 3 ataques aéreos foram executados contra o grupo; em contrapartida, a região da fronteira turco-iraquiana, também dominada por curdos, sofreu dezenas de ataques[5].

Embora o Governo da Turquia não forneça o número exato, ou os locais dos ataques, Metin Gurcan, ex-membro das forças especiais turcas e analista monitorando a crise, estima um total de 300 ataques contra o PKK, incluindo ataques de artilharia[5]. A desproporção de ações contra o PKK em comparação as executadas contra o EI também se reflete no número de baixas: apenas 9 militantes do Estado Islâmico foram mortos, comparados a quase 400 combatentes curdos[6][5].

As tensões entre o PKK e o Governo turco remontam aos anos 1980, quando o partido curdo exigiu o estabelecimento de um Estado curdo. Embora mais tarde o PKK tenha revisto seus objetivos e passado a focar em demandas por autonomia, ao invés de independência, o Governo turco continua a tê-los como inimigo de Estado. Nesse contexto, em 2012, a Turquia utilizou a Guerra Civil na Síria como pretexto para atacar áreas curdas na fronteira com a Síria, pressionando o PKK a concordar com um cessar-fogo em 2013[3]. Todavia, Ankara parece agora se reengajar em ataques contra o partido curdo.

Para entender a manobra turca contra o PKK, é preciso remeter às eleições parlamentares de junho deste ano (2015), quando o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em inglês) – partido do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan – falhou, pela primeira vez, desde 2002, em conseguir os 276 assentos necessários para obter maioria parlamentar[5][7][8].

Na última segunda-feira, 17 de agosto, as negociações entre o AKP e partidos da oposição para a formação de um Governo de Coalizão fracassaram[9]. De acordo com a Constituição turca, se nenhum Governo for formado até o próximo domingo, 23 de agosto, Erdoğan deverá dissolver o Gabinete do primeiroministro Ahmet Davutoğlu e formar um Governo Interino para liderar o país até novas eleições[9], as quais parecem cada vez mais prováveis, dado o fracasso das negociações na última segunda-feira[10].

Nesse contexto, analistas apontam que os ataques turcos contra o PKK fazem parte de uma estratégia política de Erdoğan para “ganhar pontos com eleitores nacionalistas que desprezam qualquer forma de autodeterminação da minoria curda[7]. Dessa forma, Erdoğan e seu Partido, o AKP, visam manter o suporte internacional – devido a seu engajamento na guerra contra o Estado Islâmico – ao mesmo tempo que melhorando suas chances em uma possível nova eleição[5][11].

Contudo, os ataques turcos contra o PKK no Iraque criaram uma guerra interna na Turquia. Como relatam David Kenner, para aForeign Policy[7], e Lauren Bohn, para o The Atlantic[12], a cidade de Diyarbakir, capital não-oficial do Curdistão turco, tem sido marcada por conflitos diários entre manifestantes curdos e a polícia curda.

Na região leste do país, de população majoritariamente turca, 39 policias e sodados turcos foram mortos desde 20 de julho, comparado à 40 baixas civis, incluindo as consequentes do ataque suicida em Suruc[2][13]. A Turquia, por sua vez, prendeu mais de 2.500 pessoas em operações recentes. Embora o Governo afirme que tais operações fazem parte de seus esforços contra o Estado Islâmico, a maioria dos detidos tem sido membros do PKK[14].

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* Como a Turquia não fornece informações completas, é provável que o mapa acima mostre apenas uma fração dos ataques aéreos na região da fronteira turco-iraquiana. Página da IRIN News apresenta mapa interativo com disposição similar – e com a mesma ressalva em relação ao caráter parcial da informação disponível. Nela é permitido ao usuário clicar em localizações específicas de cada ataque e obter a fonte de informação. Ver:

http://newirin.irinnews.org/fact-check-turkey-isis-pkk.

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Imagem (Fonte):

http://www.nytimes.com/interactive/2015/08/12/world/middleeast/turkey-kurds-isis.html?_r=0

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

https://ceiri.news/o-conflito-sirio-e-o-debate-sobre-a-criacao-de-uma-zona-segura/

[2] Ver:

https://ceiri.news/o-conflito-sirio-e-o-debate-sobre-a-criacao-de-uma-zona-segura/

[3] Ver:

http://carnegie-mec.org/2015/08/12/isis-or-kurdish-rebels-who-is-turkey-really-fighting-anyway/iemj

[4] Ver:

https://www.foreignaffairs.com/articles/turkey/2015-08-03/turkeys-cover

[5] Ver:

http://newirin.irinnews.org/fact-check-turkey-isis-pkk

[6] Ver:

http://www.aa.com.tr/en/turkey/571151–turkish-air-strikes-kill-390-pkk-says-security-source

[7] Ver:

https://foreignpolicy.com/2015/08/17/turkeys-war-within-kurds-election-erdogan-pkk/

[8] Para mais detalhes sobre o resultado das eleições parlamentares, ver:

https://foreignpolicy.com/2015/06/07/a-body-blow-for-turkeys-ruling-party-election-erdogan-hdp-akp-kurdish-party/

[9] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/aug/18/turkish-pm-ahmet-davutoglu-coalition-talks-collapse

[10] Ver:

http://www.nytimes.com/2015/08/19/world/europe/isis-video-urges-turks-to-revolt-against-their-president.html

[11] Para mais informações sobre os interesses políticos do AKP por trás da campanha contra o PKK, ver:

http://www.nytimes.com/2015/08/06/world/middleeast/turkey-recep-tayyip-erdogan-airstrike-pkk-isis.html?_r=0

[12] Ver:

http://www.theatlantic.com/international/archive/2015/08/turkey-kurds-pkk-syria/401624/

[13] Ver:

http://news.yahoo.com/three-turkish-soldiers-killed-pkk-attack-east-army-144251296.html

[14] Ver:

http://www.hurriyetdailynews.com/turkish-police-seize-30-isil-suicide-vests-some-ready-for-use.aspx?PageID=238&NID=87001&NewsCatID=509

About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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