ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Turquia e Irã promovem ataques ao Curdistão iraquiano

A recente campanha Garra de Tigre, que lançou uma série de ataques militares da Turquia contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), associada a uma série de ações do Irã contra cidades curdas, vem impactando o norte do Iraque e levou o governo iraquiano a emitir comunicados exigindo que os vizinhos deixem de promover ações militares em seu território.

O Ministério da Defesa turco informou que em uma ação combinada com uso de caças F-16, veículos aéreos não-tripulados (VANTs) e obuses atingiu cerca de 500 alvos do PKK na região em menos de 36 horas. Parte da operação envolve também o envio de soldados de suas forças especiais para combater unidades do PKK no norte do Iraque. Para além de se converter na terceira campanha militar turca no exterior, militares do país já atuam na Líbia e na Síria.

Os ataques realizados pela Turquia também vem sendo alvo de críticas por parte de distintos atores por cobrir a região habitada pela população yazidi, uma etnia curda profundamente afetada pelos conflitos recentes.

Veículos de mídia pró-curdos, como a agência Firat, afirmam que, devido a proximidade, os bombardeios visavam o campo de refugiados de Makhmour, que concentra mais de 10 mil curdos refugiados da Turquia. O governo iraquiano, no entanto, declara que ataques curdos atingiram campos de refugiados.

No mesmo período, o Irã também realizou ações na região de Barda-Soran, ao nordeste de Erbil – capital do Curdistão iraquiano. Segundo fontes de Teerã, as ofensivas têm objetivo de perseguir combatentes curdos que atacaram o país, enquanto membros do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (HDKA, na sigla em curdo) afirmam que grupos ligados a Guarda Revolucionária do Irã têm realizado agressões constantes a bases e núcleos políticos com objetivo de desestabilizá-los.

Os bombardeios que ocorreram em pelo menos dois dias distintos causaram profundo danos civis e levaram à evacuação de pelo menos 20 vilas na região. O Governo Regional do Curdistão condenou as atitudes do Irã, conclamando o país a suspender ações na área e informou que não tolerará o uso da região por grupos políticos curdos para atacar o Estado vizinho.

Para além das manifestações do governo regional, o Ministro das Relações Exteriores, Fuad Hussein, convocou o embaixador turco Fatih Yildiz para entregar um “firme memorando” sobre os atos turcos. Atores tanto no Iraque quanto em outros países da área interpretam as ações dos Estados vizinhos como uma forma de se aproveitarem de um “momento de fraqueza” do governo de Bagdá.

Tanto o Irã quanto a Turquia afirmam que as atuações são defensivas e foram motivadas por agressões de grupos curdos às posições militares e pontos em suas fronteiras. As autoridades dos Estados também ressaltam que classificam tanto o PKK quanto o HDKA como organizações “terroristas”. O site do Ministério da Defesa turca informou em nota que o PKK ameaça “a segurança da fronteira e população turca com ataques e provocações a postos avançados a partir do norte do Iraque”.

O Ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, revisa plano de ação da Operação Garra de Tigre com oficiais do país – Fonte: página oficial de Hulusi Akar no Twitter: @tchulusiakar

O Comando de Operações Conjuntas do Iraque classificou as ações militares no norte do país como “provocativas”, enquanto o ministro Hussein ressaltou em um discurso público que o país “urge que a Turquia interrompa os bombardeios e retire quaisquer tropas que tenham em território iraquiano”.

O porta-voz do Ministério da Defesa do Iraque, Yehia Rasool, em anúncio junto a representante do primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi – Fonte: página oficial do governo do Iraque no Twitter: @IraqiGovt

Quanto as declarações de que os acometimentos seriam preventivos, o Comando de Operações Conjuntas salientou que “deplora a invasão de espaço aéreo iraquiano por aeronaves turcas que penetraram a 193 quilômetros da fronteira turca dentro do território iraquiano”.

Apesar de confrontos na região entre forças curdas e países vizinhos serem comuns, os atos bélicos acontecem em um período de escalada de violência e aumento da presença militar, tanto da Turquia como do Irã.

Estados adjacentes saíram rapidamente a condenar a ação. No dia 17 de junho, após o anúncio da operação Garra de Tigre, autoridades dos Emirados Árabes Unidos afirmaram que as ações tanto da Turquia quanto do Irã representam uma “séria violação da soberania do Iraque”.

O momento, entretanto, levanta questões quanto à preocupação com a estabilidade iraquiana. Tendo vista a expansão de atos militares no exterior por parte da Turquia, outros governos pela área podem temer que, para além de querer controlar ataques curdos ou criar uma pressão sobre Bagdá, ações militares como essas podem vir a se tornar mais comuns e afetarem mais Estados ao longo do tempo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, visita tropas que tomarão parte na ação Garra de TigreFonte: página oficial de Hulusi Akar no Twitter: @tchulusiakar” (Fonte):

https://twitter.com/tchulusiakar/status/1274292366296350720/photo/4

Imagem 2O Ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, revisa plano de ação da Operação Garra de Tigre com oficiais do país Fonte: página oficial de Hulusi Akar no Twitter: @tchulusiakar” (Fonte):

https://twitter.com/tchulusiakar/status/1274292868295929858/photo/3

Imagem 3O portavoz do Ministério da Defesa do Iraque, Yehia Rasool, em anúncio junto a representante do primeiroministro Mustafa alKadhimiFonte: página oficial do governo do Iraque no Twitter: @IraqiGovt” (Fonte):

https://twitter.com/IraqiGovt/status/1272973460629868548/photo/1

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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