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Turquia inaugura julgamento à revelia de 20 sauditas por assassinato de Khashoggi

O governo turco iniciou, em 3 de julho de 2020, o julgamento dos acusados pelo assassinato do jornalista saudita Jamal Ahmad Khashoggi, morto em 2 de outubro de 2018. Khashoggi, crítico do governo da Arábia Saudita, foi morto dentro do Consulado do Reino em Istambul, na Turquia. O jornalista tinha 59 anos e seus restos mortais nunca foram encontrados.

Entre os 20 sauditas julgados in absentia pelo crime estão Saud al-Qahtani, ex-Assessor do Príncipe Herdeiro Mohamad Bin Salman, e o ex-número dois da inteligência saudita, o General Ahmed al-Asiri. A acusação incrimina as duas autoridades sauditas de instigarem “assassinatos premeditados com intenção monstruosa”. Ambos negam qualquer envolvimento no assassinato. O julgamento pode resultar em prisão perpétua, mas, como nenhum dos acusados está presencialmente na Turquia, os efeitos serão em boa medida simbólicos.

Durante décadas, Ahmad Khashoggi esteve próximo à Família Real Saudita, tendo servido como consultor do governo. Em 2017, contudo, foi preterido e se autoexilou nos Estados Unidos. O jornalista passou a ser colunista mensal do The Washington Post e criticava as políticas de Mohammed bin Salman, filho do Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud. Ainda segundo a BBC, em sua primeira coluna para o Post, em setembro de 2017, Khashoggi escreveu que temia ser preso por dissidência, alvo de uma repressão supervisionada pelo Príncipe.

Mohammad bin Salman,
Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita

Segundo o G1, durante a investigação, as autoridades turcas assistiram horas de gravações das câmeras de segurança do Consulado, interrogaram dezenas de pessoas e percorreram até a rede de esgoto ao redor do território diplomático saudita para buscar evidências do homicídio do jornalista. O Middle East Monitor reporta que, após o assassinato, uma investigação das imagens do circuito interno de televisão revelou que uma equipe de assassinos sauditas havia sido enviada pelo Reino para preparar a ação. As gravações de áudio também implicariam o próprio Príncipe Herdeiro como responsável por comandar a operação pelo telefone.

Khashoggi visitou o Consulado da Arábia Saudita em Istambul pela primeira vez em 28 de setembro de 2018, visando obter um documento saudita afirmando que era divorciado, para que pudesse então se casar com sua noiva turca, Hatice Cengiz. Khashoggi foi informado que teria que voltar ao Consulado para retirar o documento e retornou dias depois, em 2 de outubro. “Ele não acreditava que algo ruim pudesse acontecer em solo turco”, escreveu Cengiz. No dia do retorno, a noiva o acompanhou até a entrada do Consulado, esperou mais de 10 horas do lado de fora e retornou na manhã seguinte, quando Khashoggi ainda não havia reaparecido.

Após negar o assassinato do jornalista e apresentar versões contraditórias, Riad reconheceu que o crime foi cometido por agentes sauditas que atuaram por conta própria e sem ordens das autoridades superiores.

Oficiais turcos disseram que uma teoria adotada pela polícia foi que os assassinos podem ter tentado se desfazer do corpo queimando-o, após sufocamento do jornalista e esquartejamento de seu cadáver. Zeki Demir, um técnico local que trabalhou na representação diplomática, disse que foi chamado para a residência do Cônsul depois que Khashoggi entrou no Consulado ao lado. “Havia de cinco a seis pessoas lá… Eles me pediram para acender o tandoor [forno]. Havia um ar de pânico”, disse em depoimento.

Ahmad Asiri (à direita) e
Mohammed bin Salman (à esquerda) em 2016

Em 23 de dezembro de 2019, a Arábia Saudita, que rejeitou o pedido de extradição da Turquia, condenou oito pessoas pelo assassinato. Cinco delas foram condenadas à morte por participação direta no assassinato, enquanto outras três foram condenadas à prisão por encobrir o crime. A Arábia Saudita acusou a Turquia de não cooperar com o julgamento, que, segundo reporta Al-Jazeera, foi realizado em separado e de forma amplamente secreta em Riad. À época, o Promotor saudita disse que não havia evidências que ligassem al-Qahtani ao ato e negou as acusações contra al-Asiri.

Agnes Callamard, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para assassinatos extrajudiciais, sumários ou arbitrários, classificou o julgamento saudita como “a antítese da justiça”. A página do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos publicou ainda que Khashoggi foi “vítima de uma execução deliberada e premeditada”. “O veredicto de Khashoggi é exatamente o sinônimo da impunidade” escreveu no The Washington Post em dezembro de 2019. “Segundo a lei internacional de Direitos Humanos, o assassinato de Khashoggi foi uma execução extrajudicial pela qual o Reino da Arábia Saudita deveria ser responsabilizado”, condenou a relatora.

A impunidade pelo assassinato de um jornalista comumente pode revelar repressão política, corrupção, abuso de poder, propaganda e até cumplicidade internacional; e todos esses elementos estão presentes no assassinato do Sr. Jamal Khashoggi…”, escreveu Callamard.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Jornalista saudita Jamal Khashoggi (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jamal_Khashoggi#/media/Ficheiro:JamalKahshoggi.png

Imagem 2 Mohammad bin Salman, Príncipe Herdeiro da Arábia Saudita” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mohammad_bin_Salman#/media/Ficheiro:Crown_Prince_Mohammad_bin_Salman_Al_Saud_-_2017.jpg

Imagem 3 Ahmad Asiri (à direita) e Mohammed bin Salman (à esquerda) em 2016” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Ahmad_Asiri_(general)#/media/File:Asiri_and_MbS.png

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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