AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Uruguai lidera em mobilidade social na América do Sul

Chamamos de mobilidade social “o fenômeno em que um indivíduo (ou um grupo) que pertence a determinada posição social transita para outra, de acordo com o sistema de estratificação social”. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE ou OECD, em inglês) e o  Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum ou WEF, em inglês) defendem a ideia de que melhorar esse trânsito social contribui para alavancagem do desenvolvimento econômico. E, em termos de América do Sul, o Uruguai está na frente.

A mobilidade social costuma ocorrer de 4 maneiras: horizontal, vertical, intrageracional e intergeracional. Na horizontal, apesar da mudança ocorrida na vida do indivíduo – profissão, por exemplo – ele se mantém na mesma posição social. A vertical pode ser ascendente ou descendente, isto é, ganho ou perda de posição. A intrageracional se caracteriza pela mudança ocorrida no decorrer do ciclo de vida de uma mesma geração, enquanto que a intergeracional indica deslocamento – seja horizontal ou vertical – entre mais de uma geração.

Em junho de 2018, a (OCDE) publicou um estudo denominado “A Broken social elevator? How to promote social mobility” (“Um elevador social quebrado? Como promover mobilidade social”, em tradução livre). O estudo, que cobre dos anos 1980 a 2018, ao abordar o aumento da desigualdade social, afirma que a renda média dos 10% mais ricos, em 25 anos, aumentou de 7 para 9,5 vezes mais que a renda dos 10% mais pobres. E acrescenta que os 10% mais abastados concentram 50% da riqueza, enquanto os 40% menos abastados acumulam apenas 3%.

A OCDE enfatiza o caráter multidimensional da desigualdade, em que o status socioeconômico influencia nas perspectivas de emprego, de qualidade do trabalho, de condições de saúde e na educação. Crianças cujos pais não concluíram o ensino médio têm chance de apenas 15% de cursarem uma faculdade, enquanto é de 60% as chances para aqueles que, pelo menos, um dos pais tem nível superior. Quanto à saúde, estatísticas levantadas em países da OCDE, demonstram que um jovem universitário de 25 anos vive, em média, quase 8 anos mais que um jovem de baixa escolaridade.

A alegoria do “elevador quebrado”, que integra o título do relatório, pode ser melhor compreendida quando abordamos os conceitos de sticky floor e sticky ceiling (piso grudento e teto grudento, em tradução livre). Grosso modo, esses conceitos resultam de dados que evidenciam que um jovem de família paupérrima tem chances mínimas de ascender socialmente e, via de regra, permanece “grudado” no mesmo patamar dos seus pais. Já um jovem de família de alta renda tende a se manter na mesma classe socioeconômica dos seus genitores. 

O estudo constata que a mobilidade social tem se reduzido, nas últimas décadas, e que o status de uma geração influencia fortemente na geração seguinte. Esse contexto de crescentes desigualdades de renda e de oportunidades resulta em baixa mobilidade vertical ascendente, com consequente perda de talentos. Além disso, oportunidades de investimento deixam de ser aproveitadas e negócios potenciais não florescem, sabotando a produtividade e o crescimento econômico. O acirramento dessa desigualdade gera maiores custos de eficiência, insatisfação, esgarçamento do tecido social com desgaste na confiança no sistema político e ameaça à democracia.

Com objetivo de propor um modelo de crescimento centrado em pessoas, utilizando o bem-estar como métrica de sucesso, o Relatório da OCDE contempla o estudo da mobilidade ao longo de gerações, em termos de renda, educação, saúde e ocupação e a correlação destes aspectos com a desigualdade. A análise dos fatores que determinam e moldam a mobilidade social permite a compreensão dos padrões, dimensões e tendências, e gera subsídios para a formulação de políticas públicas que melhor promovam um crescimento mais inclusivo.

Uma constatação aparentemente óbvia, mas importante, do Relatório da OCDE é que a relação entre desigualdade e mobilidade de renda é inversa, ou seja, há mais chances de ascender onde há menos níveis e, portanto, menos desigualdade. Já onde existe mais níveis e maior desigualdade as pessoas não conseguem obter melhorias significativas. Assim, para estimular a mobilidade social propõem a aplicação de políticas públicas dirigidas aos menos favorecidos, em cinco áreas-chave: saúde e cuidados com as famílias; educação; mercado de trabalho; transferência de renda; planejamento urbano e habitacional.

Banner da publicação da OCDE ‘A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility

No início de 2020, quase 2 anos depois da OCDE, o Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês) divulgou o Índice de Mobilidade Social Global 2019 (Global Social Mobility Index 2019, ou GSMI). O ranking de 82 países é liderado pelos nórdicos, nesta ordem: 1) Dinamarca; 2) Noruega; 3) Finlândia; 4) Suécia e 5) Islândia. Dentre as 10 primeiras nações classificadas, 8 são as mesmas dos Top 10 do World Happiness Report 2019,  que foi objeto do artigo “Chile é o país mais feliz da América do Sul”, publicado no CEIRI NEWS em 27/3/2019. A África encerra a lista com Camarões (80), Senegal (81) e Costa do Marfim (82).

Na América do Sul aparecem Uruguai (35º), Chile (47º) e Argentina (51º), logo em seguida estão o Equador (57º) e o Brasil (60º). O GSMI, diferente de outros que costumam aferir resultados, avalia vetores da mobilidade, ou seja, políticas, práticas e instituições. Utiliza-se de 10 pilares que convergem para cinco fatores determinantes: 1) saúde; 2) educação; 3) acesso à tecnologia; 4) oportunidades de emprego, qualidade do trabalho e distribuição justa de salários; 5) proteção social e instituições inclusivas.

Uma das principais revelações do Índice é que, apesar do bom desempenho dos primeiros classificados, a maioria apresenta deficiências quanto a salários justos, proteção social, condições de trabalho e educação continuada. Um dado interessante, apresentado em gráfico na página 10 do estudo, indica que na Dinamarca (1º lugar) uma pessoa nascida em família de baixa renda leva 2 gerações para ascender à renda média. Em contraponto, no Chile (47º) levaria 6 gerações e no Brasil (57º) seriam 9 gerações.

Com 3,5 milhões de habitantes, o Uruguai (35º) teve suas notas mais altas em Proteção Social (78 pontos) e Instituições Inclusivas (75), o que lhe conferiu o 14º e 25º lugares, respectivamente, nestes 2 pilares que formam o fator 5 (proteção social e instituições inclusivas). E ficou na 20ª posição, com 67 pontos, no pilar Condições de Trabalho, que integra o fator 4 (oportunidades de emprego, qualidade do trabalho e salários justos). As três pontuações (78; 75 e 67) estiveram acima das médias mundiais. Os piores desempenhos dos uruguaios foram em Saúde (65 pontos), ocupando a 61º posição neste fator; 59 pontos em Qualidade e Equidade da Educação (54ª posição) e 42 pontos no pilar distribuição justa de salários (55ª posição). Todas as três pontuações (65; 59; 42) estiveram abaixo da média global.

Duas importantes conclusões do WEF são: economias que se utilizam do modelo de capitalismo das partes interessadas (stakeholder capitalism) obtêm melhores desempenhos que aquelas que seguem o capitalismo dos acionistas (shareholder capitalism), ou o capitalismo de Estado (state capitalism). Políticas que combinam crescimento econômico, mobilidade social, sustentabilidade ambiental tendem a ser melhor sucedidas. Se todos os países aprimorassem em 10 pontos os seus fatores do GSMI isso levaria a um acréscimo de 4,41% no PIB mundial em 2030

O WEF prescreve ações para os Governos: criar um novo modelo financeiro para a mobilidade social, com impostos progressivos sobre a renda, taxação de grandes fortunas; maior ênfase nas políticas e gastos sociais; maior suporte para a educação, quanto à oferta, qualidade e distribuição de programas, assim como a capacitação por meio de educação continuada; elaborar um novo contrato social que proteja todos os trabalhadores, empregados ou desempregados, especialmente em contextos de mudança tecnológica e transições.

E, por fim, para as empresas: promover a cultura da meritocracia na seleção, prover orientação vocacional, requalificação e aprimoramento (reskilling and upskilling), pagamento de salários justos. De acordo com o WEF há evidência de que empresas que colocam um propósito acima dos lucros, têm melhor desempenho no longo prazo. As corporações enfrentam os mesmos desafios do sistema, inclusive a desigualdade e, ajudando as sociedades a serem mais igualitárias, amplia-se a base de consumidores, os mercados ficam mais estáveis e aumenta-se a confiança entre clientes e partes interessadas (stakeholders).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mobilidade Social Imagem do Fórum Econômico Mundial” (Fonte):

https://assets.weforum.org/report/image/bIqVY-i0e0rBdAK091_BIHD9gRAmfyb-uBRndxLyHrE.jpg

Imagem 2 Banner da publicação da OCDE A Broken Social Elevator?How to Promote Social Mobility” (Fonte):

https://scontent.fbsb8-2.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/35058146_10155402266197461_725203728986013696_o.jpg?_nc_cat=102&_nc_sid=dd9801&_nc_oc=AQkJLzAKZJX_nVrSySZqyESkP3teHvV5G3y7QvPXDgixjttZ3mmaM4vmObEFmY8uA9o&_nc_ht=scontent.fbsb8-2.fna&oh=14213ce7049f5c6191d82eded3300e60&oe=5F07D956

About author

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.
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