fbpx
AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Venezuela indecisa sobre seu futuro

Nicolás Maduro - Vice-Presidente da VenezuelaFaltando dez dias para que o presidente Hugo Chávez seja reempossado no cargo de “Presidente da República Bolivariana da Venezuela”, a indecisão e insegurança perpassa na sociedade venezuelana. Ontem, dia 1o de janeiro, o jornal espanhol ABC* informou que a situação do mandatário encontra-se em pior estado do que vem sendo divulgado pelos canais oficiais, declarando que Hugo Chávez está em coma induzido, com febre constante e não reagindo aos antibióticos e vem sendo alimentado por meio intravenoso desde a cirurgia  que retirouquase meio metro de intestino[1]. O jornal informou ainda que as máquinas poderão ser desligadas causando a morte do mandatário[2].

Os representantes do Governo estão desmentindo as informações e declaram que são “rumores maliciosos[1], já que o estado de saúde do Presidente é “tranqüilo e estável[1], conforme postou em seu Twitter o ministro da Ciência e Tecnologia e genro de Chávez, Jorge Arreaza,

Nicolás Maduro, o escolhido pelo mandatário para ser o seu sucessor, afirmou que ele encontra-se “consciente da complexidade de sua condição[3], querendo com isso desmentir que Chávez está em coma. Afirmou em entrevista dada a rede de TV venezuelana Telesur: “Pude vê-lo por duas vezes, e falei com ele (…). Ele está consciente da complexidade do seu estado pós-operatório[3].

O conflito de informações está intenso, com constantes negações por parte do governo e exigências pela Oposição de detalhes sobre a real condição de saúde do Presidente, acusando que as autoridades vêm sendo usado de  “aparatos de manipulação e propaganda [com o intuito de] confundir o país e criar um clima de tensão[4].

Em comunicado emitido pela frente opositora, a “Mesa da Unidade Democrática” (MUD), a Oposição denuncia que “A incerteza domina o governo e com palavras eles pretendem esconder o que a cada dia é mais certo: (…) os que primeiro desrespeitam a saúde do presidente são os funcionários mais graduados do governo, que fazem discursos bajuladores a Chávez, mas não têm a estatura para informar qual é a verdadeira situação de saúde do chefe de Estado[4]. Acusa ainda: “O Governo não quer reconhecer que há uma ausência temporária do Presidente  em funções e começa a lançar, com recurso aos seu aparelho de propaganda,  uma enxurrada de rumores que visam enganar o país e criar um clima de tensão[5].

Diosdado Cabello - Presidente da Assembléia Nacional VenezuelanaA questão da ausência temporária é essencial, pois, segundo vem sendo noticiado na mídia venezuelana, partidários de Chávez, membros do “Partidos Socialista Unido de Venezuela” (PSUV) sob o comando do “Presidente da Assembléia Nacional”, Diosdado Cabello, estão criando a sensação no país de Chávez poderá retornar a qualquer momento, razão pela qual ele têm sugerido que sua posse seja adiada para depois do dia 10 de janeiro, sendo investido em sessão do “Tribunal Constitucional[4].

A proposta está revoltando a Oposição, pois seria um golpe na Constituição venezuelana, a qual prescreve que na impossibilidade de o Presidente eleito tomar posse neste dia, Cabello assuma interinamente e convoque eleições para os próximos 30 dias.

A situação está tensa. O campo das informações tem sido o espaço de batalha neste momento. Para grande parte dos observadores, os indícios são de que o Presidente realmente tem piorado a sua condição de saúde, sendo mais provável que as anúncios feitos pelo jornal espanhol ABC no dia 1o de janeiro, bem como as informações divulgadas no dia 11 de dezembro de 2012 pelo jornal Voz da Rússia[6] de que Chávez teria entre 2 e 3 meses de vida estejam corretos, estando sendo criado no país um cenário de luta interna, dentro do Governo, para resolver a questão de quem será o sucessor do Presidente, uma vez que a escolha de Chávez por Nicolas Maduro não agradou segmentos importantes do chavismo, especialmente entre os militares, embora também esteja  no planejamento garantir que os opositores não avancem no espaço político que está sendo aberto.     

Analistas destacam o receio em parte da população venezuelana e naComunidade Internacional” gerado pelo juramento feito por partidários de Hugo Chávez, presidido em cerimônia pelo “Presidente da Assembléia Nacional” e “Vice Presidente do PSUV”, Diosdalo Cabello, no qual proclamaram: “Com todas as forças dos nossos ancestrais, juramos ser leais. Não haverá força capaz de nos dividir, de nos separar, até alcançarmos a vitória definitiva[7].

Segundo apontam, este juramento de lealdade adquiriu um contorno que está aquém de um regime democrático e próximo dos regimes de extrema direita, em que um promessa de sangue perpassa os vínculos de lealdade de um grupo com uma figura mítica, tal qual se viu nos regimes fascistas europeus dos anos 20, 30 e 40 do século XX.

Ademais acrescentam que a fragilidade das instituições venezuelanas, que têm grandes conteúdos personalistas tenderão a se esfacelar, à medida que a ausência do líder messiânico produzir porta-vozes diversos que usarão sua imagem para alcançar o poder.

Alguns observadores levantam a suspeita de que a proposta de Diosdalo Cabello de adiar a posse de Chávez tem como meta impedir que Nicolás Maduro se configure como o sucessor do Presidente. Para tanto, ele precisaria de tempo para juntar o Partido em torno de seu nome e, mais importante, garantir que asForças Armadaso sigam de forma segura.

Os militares, por sinal, são peças essenciais nesse processo. Nicolás Maduro (o Chanceler e Vice-Presidente escolhido por Chávez, provavelmente seu sucessor) fez declaração ao Exército lendo documento supostamente escrito pelo Presidente. No texto ele afirma: “Aqui há uma revolução militar em marcha e deve ser permanente, não pode deter-se[8].  Conforme apontam os observadores, “as Forças Armadas vão adquirindo [papel] como árbitro na luta pelo poder que se gesta no interior do chavismo[8].

Neste ato (em que houve a leitura do texto sobre o qual há suspeitas de que tenha sido escrito por Nicolas Maduro e não por Chávez) Diosdalo Cabello estava presente e apresentou-se com roupa militar, mostrando que tem mais vínculos com as “Forças Armadas” do que o Vice-Presidente e Chanceler.

Para ilustrar a importância das “Forças Armadas”, ex-militares governam em 11 dos 23 Estados venezuelanos, ocupam 3 pastas do Governo, controlam o aparato de assistência social, ocupam a presidência da Assembléia (Cabello é ex-militar) e perpassam vários órgãos administrativos do país, seja pela presença direta das Forças, seja pela transposição do modelo militar de organização e administração, o que respalda a avaliação da psicóloga política Colette Capriles, professora da “Universidade Simón Bolívar”, de que o Exército (podendo ser extensível às “Forças Armadas” como um todo) é um “corpo biopolítico[8], conforme declaração feita ao portal G1[8]. Acrescentando ainda, de acordo com o disseminado pelo G1: “Este regime assume para si mudar e ordenar a vida das pessoas. (…) E para isso construiu um sistema eficaz de localização e mobilização dos indivíduos através de organizações em que devem se inscrever, às vezes sem sua vontade, que os conduzem do berço ao túmulo[8].

Deve-se ressaltar que Chávez criou vários aparatos institucionais militares, ou com configuração paramilitar, e, apesar de o Exército ser a peça fundamental, as Forças são compostas ainda pela Armada, “Força Aérea”, “Guarda Nacional” e “Milícia Bolivariana”, havendo sobre esta última uma interrogação de como se comportará, uma vez que apresenta conteúdo ideológico e vinculado ao Regime político mais que ao Estado venezuelano.

Diante do quadro que se desenha, os observadores tendem à avaliação de que Chávez não assumirá a Presidência e, se o fizer, será por tempo curto, forçando a que a Constituição seja cumprida, ou seja, que nos próximos anos, se ele for afastado definitivamente, será obrigatória nova eleição.

Acreditam os analistas que no curso prazo o vazio produzido pelo líder carismático beneficiará os bolivarianos devido ao temor do futuro com a sua ausência e pela comoção de parte da população que depende diretamente das políticas assistencialistas do mandatário e de seu regime, mas a tendência é que haja confrontos internos e os bolivarianos poderão ser sobrepujados paulatinamente pela Oposição, porém esta ainda precisa ter uma unidade real e necessita também de um projeto bem definido.

Caso isto não se configure, os observadores não afastam que emerge a possibilidade de um regime militar assumir o país trazendo grandes conseqüências para a região, uma vez que haverá contradição direta em relação aos atos do MERCOSUL e da Unasul, bem como questionamentos acerca da questão da democracia na Venezuela, algo que desestabilizará os discursos de parte da esquerda latino-americana.

————————–

Imagens fontes:

* Nicolas Maduro (Wikipédia):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolás_Maduro

** Diosdalo Cabello (Wikipédia):

http://es.wikipedia.org/wiki/Diosdado_Cabello

————————–

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=608564

[2] Ver:

http://expresso.sapo.pt/hugo-chavez-esta-em-coma-induzido-ha-varios-dias-jornal-espanhol=f776825

[3] Ver:

http://noticias.sapo.pt/nacional/artigo/hugo-chavez-esta-consciente-da-complexidade-do-seu-estado-de-saude-vice-presidente_15534113.html

[4] Ver:

http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/oposicao-venezuelana-exige-informacoes-sobre-chavez?page=1

[5] Ver:

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2012/12/30/oposicao-na-venezuela-acusa-governo-de-ocultar-estado-de-saude-de-chavez

[6] Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2012_12_11/A-Hugo-Chavez-restam-2-3-meses-de-vida/

[7] Ver:

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2012/12/29/partidarios-juram-lealdade-a-hugo-chavez/

[8] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/militares-sao-peca-chave-numa-transicao-venezuelana-7169923

—————————-

Ver também:

http://br.noticias.yahoo.com/chávez-celebra-54-aniversário-revolução-cubana-unido-à-212937887.html

Ver também:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/12/maduro-chega-cuba-para-visitar-hugo-chavez.html

Ver também:

http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=2970319

Ver também:

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2012/12/30/interna_mundo,415478/piora-estado-de-saude-hugo-chavez.shtml

Ver também:

http://expresso.sapo.pt/hugo-chavez-sofreu-novas-complicacoes=f776634

Ver também:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/12/agravamento-de-estado-de-saude-de-chavez-deixa-venezuela-em-suspense.html

Ver também:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/venezuela-cancela-show-de-ano-novo-devido-a-doenca-de-chavez

Ver também:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-01-01/ministro-venezuelano-e-genro-de-chavez-diz-que-presidente-esta-estavel-e-tranquilo

Ver também:

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/mundo/noticia/2012/12/saude-de-hugo-chavez-se-agrava-e-festa-de-fim-de-ano-e-suspensa-em-caracas-3997641.html

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/estado-de-saude-de-hugo-chavez-se-agrava,22b54e5c5b1eb310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

Ver também:

http://www.portugues.rfi.fr/americas/20121231-estado-de-saude-de-hugo-chavez-continua-delicado-afirma-vice

Ver também:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,partidarios-pedem-que-venezuelanos-rezem-por-hugo-chavez,979496,0.htm

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
Related posts
AMÉRICA DO NORTEANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

Rumos geopolíticos entre Rússia e EUA, após as eleições norte-americanas

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Movimento #EndSARS na Nigéria

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

França, Europa e o apogeu da intolerância

ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Após um ano de protestos populares e de sua própria renúncia, Hariri retorna ao posto de Premier no Líbano

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!