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Visita de Estado de Xi Jinping a Washington: a questão dos rumos na relação com os EUA

A semana em Washington, primeiramente com a histórica visita do Papa Francisco e, depois, com a recepção de Estado ao presidente chinês Xi Jinping, abriu novas perspectivas em política internacional, dada a importância das mensagens deixadas pelos dois estadistas, que, através de encontros bilaterais, traçaram prognósticos e acalentaram a comunidade internacional com mensagens realistas e estratégicas, cada qual objetivando modelos equilibrados para manutenção de uma ordem internacional multipolar e de cooperação.

A visita do Chefe de Estado chinês aos Estados Unidos tem grande valor simbólico, devido ao momento da relação entre os dois países, classificado por especialistas como desafiante. Os numerosos desafios podem ser superados através de uma agenda colaborativa ampla. Questões como ciberespionagem, as tensões no Mar do Sul da China e a desaceleração econômica de Beijing foram pontos importantes da visita oficial. Por outro lado, questões envoltas à cooperação, como o Tratado Bilateral de Investimento (BIT, na sigla em inglês), a sustentabilidade ambiental, a saúde global e a propagação do terrorismo, temas de agenda comum, ficaram em segundo plano, devido à conjuntura de política interna de ambos os países sofrer com as transições que se darão no próximo par de anos, já que, em 2016, ocorrerá a Eleição Presidencial Estadunidense e, em 2017, o será Congresso do Partido Comunista.

Nesse sentido, a evolução da relação EUAChina não será alcançada nesse período de mudança institucional. A declaração conjunta de intenções sobre os ataques cibernéticos, que foi feita pelos Presidentes na Casa Branca, foi o único tema na complexa agenda dos dois países que pode ser compreendido como tendo obtido avanço nas relações entre ambos os Estados, antes do fim do atual ciclo presidencial. Da mesma forma, pode-se esperar o mesmo também na questão das mudanças climáticas, em que há interesse genuíno em enfrentar os desafios globais e realizar projetos em terceiros países.

Contudo, há uma parte de especialistas em segurança internacional, defesa e estratégia que apontam que o enfoque envolve aprofundar a ferramenta de hard power na política externa norte-americana para a Ásia. Segundo Robert D. Blackwill – que trabalhou com Henry A. Kissinger em assuntos de política externa no Council on Foreign Relations (CFR) –, e Ashley J. Tellis– do Carnegie Endowment for International Peace –, a China representa concorrência e continuará sendo o concorrente mais significativo para os Estados Unidos nas próximas décadas. Diante desse quadro, a necessidade de uma resposta mais coerente da Casa Branca e do Pentágono para o aumento do poder chinês está atrasada.

Ainda de acordo com os especialistas, a revisão da estratégia para China passa pelos entendimentos de que, após o esforço dos ocidentais em integrar o país asiático na ordem internacional liberal, a primazia norte-americana na Ásia acarretou em desafios à hegemonia de Washington e uma nova estratégia em torno do rebalanceamento do poder chinês se faz necessária, em detrimento de sua ascendência.  Isso implicará na limitação dos perigos geoeconômicos e militares que representam os principais modelos de interesses nacionais dos EUA na Ásia. Aliado a tais prerrogativas, revitalizar a economia interna, reforçar o investimento em Defesa, expandir a rede de comércio da Ásia – por exemplo, através do Trans-Pacific Partnership (TPP, na sigla em inglês) –, controlar tecnologias, políticas cibernéticas efetivas e constituir novos parâmetros em diplomacia com Beijing, tornam a estratégia de política externa mais imperativa e a favor dos anseios da alta cúpula governamental de Washington[1].

Mesmo com a possibilidade de programar diretrizes mais assertivas, a iniciativa mais coerente de ambos os Chefes de Estado é tranquilizar os mercados e não alarmá-los. A China está alterando seu modelo econômico baseado em consumo, para um modelo de serviços, o que implicará em um crescimento de PIB mais modesto. Por outra via, o mercado de ações na China, superaquecido, precisava de correção, a fim de evitar o estouro da bolha especulativa. Nessa ótica, um renminbi (Yuan) menos centralizado se fez necessário. Já os Estados Unidos reduziram o desemprego, algo que viabilizou a elevação do consumo e, consequentemente, da produção, auxiliando o crescimento que, por ora, é pequeno, mas constante.

Desta forma, uma eventual disputa hegemônica entre os principais centros econômicos do sistema financeiro internacional desmontaria a ordem vigente, pois já é evidente a simbiose que une as duas nações, distintas, mas que necessitam uma a outra para sobreviver.

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Imagem (Fonte):

http://www.wired.com/wp-content/uploads/2015/09/GettyImages-489888148.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.cfr.org/china/revising-us-grand-strategy-toward-china/p36371

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Ver Também:

http://blogs.cfr.org/asia/2015/09/25/the-xi-obama-summit-the-four-takeaways-and-taglines/

Ver Também:

http://www.cfr.org/china/improve-us-china-relations/p37044

Ver Também:

https://csis.org/publication/key-takeaways-todays-us-china-climate-announcement

Ver Também:

https://csis.org/publication/pacnet-62-chinas-preferred-world-order-what-does-china-want

Ver Também:

http://www.brookings.edu/blogs/order-from-chaos/posts/2015/09/22-will-us-impose-cyber-sanctions-china-lee

Ver Também:

http://www.brookings.edu/events/2015/09/22-challenges-prospects-us-china-relations

Ver Também:

http://www.brookings.edu/about/media-relations/news-releases/2015/0922-brookings-china-council-launches-obama-xi

Ver Também:

http://carnegieendowment.org/2015/09/14/china-us-need-to-deal-with-vital-issues-first/ihkk

Ver Também:

http://thediplomat.com/2015/09/the-significance-of-xi-jinpings-u-s-visit/

Ver Também:

http://thediplomat.com/2015/09/what-to-read-on-xi-jinpings-us-visit/

Ver Também:

http://thediplomat.com/2015/09/6-takeaways-from-xi-jinping-us-visit/

Ver Também:

http://thediplomat.com/2015/09/what-will-the-xi-obama-summit-really-deliver/

 

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Foi Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP e atualmente é Analista de Foreign Trade e Customer Care na Novus International Inc. Escreve sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.
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