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Volta das aulas e das preocupações na Europa

Após um verão atípico marcado pelas medidas de prevenção contra a Covid19 e um aumento do número de contágios nos principais destinos turísticos do continente, apesar de uma forte redução no setor e do número de visitantes, a União Europeia se prepara para a volta às aulas e para sua nova realidade.

Na Europa, bem como nos demais países do hemisfério norte, o ano acadêmico começa após o final de agosto e começo de setembro, acompanhando as estações. Dessa forma, o mês de setembro representa a volta às aulas, assim como o fim dos recessos das atividades do governo e das férias de milhares de trabalhadores, entre eles os funcionários públicos. O mês de agosto no continente Europeu é algo semelhante ao mês de janeiro no hemisfério sul, sendo marcado por uma baixa atividade, salvo pelo turismo que registra sua temporada mais alta. Porém, sem dúvidas, este foi o pior ano para o setor turístico europeu, que é um dos principais pilares da economia de países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia. 

Embora a circulação entre os países do Bloco tenha sido restabelecida em junho, muitos europeus preferiram permanecer em suas regiões ou ir a suas segundas residências sem sair dos respectivos países, reduzindo drasticamente a demanda em diversas nações nos setores de hotelaria e restaurantes, pois as restrições para passageiros de fora da União Europeia reduziu o fluxo de turismo internacional à sua mínima histórica.

Restrições como o limite de pessoas nas praias, bares e piscinas, cancelamento de diversos eventos e proibições como fumar na rua ou circular sem máscara, desestimularam grande parte dos turistas. As empresas do setor já pressionam os governos de diversos países diante de um ano marcado por prejuízos. Na Espanha, onde o turismo representa 11% do PIB, estima-se que 20% das empresas do setor devem fechar suas portas. Conforme avançava o verão, o número de novos contágios não parava de aumentar e com eles as restrições.

Símbolo popular para designar o termo ‘turismo

Com o final das férias e o aumento dos infectados, a volta às aulas foi tema de discussão em diversos países do Bloco europeu, havendo uma demora em realizar protocolos capazes de garantir a segurança dos alunos e dos profissionais de educação, que finalmente devem retornar aos centros de forma escalada, embora alguns países tenham decidido manter suas restrições.

Por outro lado, o reinício das atividades governamentais foi marcado pelas negociações da União Europeia e do Brexit, além das tensões entre a Grécia e a Turquia, que elevam as pressões na área de segurança europeia, e dos projetos a longo tempo paralisados, tais como o Exército europeu em contraponto com a dependência de muitos países com a OTAN.

Os resultados da pandemia na sociedade são cada vez mais perceptíveis, à medida que aumenta a morosidade na distribuição e alocação dos recursos cedidos pela União Europeia, diante de um crescente aumento do desemprego e dos gastos públicos, além do impacto da quarentena em diversos cultivos nos principais países produtores.

No cenário internacional, as tensões crescentes entre os Estados Unidos e China, agregados à influência da Rússia nos países da Europa do Leste, cuja região é considerada área de expansão do Bloco, mantém grande parte da diplomacia europeia concentrada nas questões internas, no intuito de reduzir ao máximo os atritos internacionais em um cenário complexo e crítico.

No aspecto do relacionamento do Bloco com os países latino-americanos, aumentam as pressões para impedir o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, devido à política ambiental do Brasil, além da crescente instabilidade local e volatilidade econômica da região, que impacta diretamente na demanda de produtos europeus e na oferta de produtos importados mais competitivos que os produzidos localmente.

Jovens participantes do Programa Erasmus em Portugal

Pela primeira vez na história, a Europa se concentra quase que exclusivamente em sua região e área de influência e, ainda que exista um crescente vácuo de poder no cenário internacional, a mesma parece não estar preparada para ocupar esse lugar devido à própria necessidade de estabilizar seu panorama interno, sendo suas ações internacionais focadas na cooperação internacional em regiões de influência histórica.

A recuperação esperada para o ano de 2021 está em perigo após a suspensão dos testes da vacina desenvolvida pela empresa AstraZeneca, que era uma das maiores apostas da Europa, levando a mesma a reservar um grande número de doses da vacina que está sendo desenvolvida pela farmacêutica Pfizer. Embora os resultados obtidos pelas vacinas desenvolvidas pela Rússia e pela China pareçam lançar boas cifras, o Bloco europeu parece ponderar em optar por uma delas, usando como justificativa a falta de cumprimento dos protocolos sanitários internacionais, ainda que, talvez, tenha receio de que sua opção acabe refletindo um determinado posicionamento em um mundo cada vez mais polarizado.

Sem embargo, esse momento de introspecção da União Europeia deve mudar neste último trimestre de 2020, devido principalmente as eleições americanas, cujo resultado pode transformar a dinâmica geopolítica e financeira global, a definição do Brexit e seu impacto real na União Europeia, além da própria situação financeira dos países membros.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Volta ao colégio por Madres hoy” (Fonte):

https://madreshoy.com/wp-content/uploads/2020/08/vuelta-al-cole-ni%C3%B1os.jpg

Imagem 2 Símbolo popular para designar o termo turismo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Turismo#/media/Ficheiro:Tourism.png

Imagem 3 Jovens participantes do Programa Erasmus em Portugal” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/União_Europeia#/media/Ficheiro:Four_students_showing_placard_in_Igreja_de_Santa_Engrácia.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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