EURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Vostok 2018: a maior manobra militar russa dos últimos 40 anos

Em seu famoso tratado sobre a guerra, Carl Von Clausewitz (1790–1831), militar prussiano especialista em estratégias de batalhas, exortava que a guerra é a continuação das relações políticas por outros meios, onde, num “duelo” em escala mais vasta, um determinado agente, valendo-se do uso da força, tem o objetivo de coagir o adversário a submeter-se à sua vontade.

Segundo Clausewitz, neste embate bélico, numa situação extrema e seguindo as condições da guerra absoluta, aquele que utiliza sem piedade desta força e não recua perante nenhum argumento ganhará vantagem sobre o adversário se este não agir da mesma forma, implicando, assim, num princípio de polaridade.

Soldados russos

No mundo atual, mesmo com leis e procedimentos internacionais que têm como objetivo o estabelecimento de relações harmoniosas entre as nações, especialistas das relações internacionais expõem que a estrutura mundial ainda é definida pelo seu princípio de primeira ordem – a anarquia* – e pela distribuição não equilibrada de recursos. Esse princípio de ordem anárquica da estrutura internacional é descentralizado, ou seja, não existe nenhum centro formal de autoridade e cada Estado soberano tem igualmente o direito a buscar o aumento do poder perante os outros dentro desse sistema, apesar da distribuição desigual dos recursos, bem como procurar meios de sobreviver. Neste processo surge o preceito da autoajuda, ou, em outras palavras, o preceito da sobrevivência perante possíveis intenções de outros Estados em aumentar seu poder relativo por meio de ofensivas militares ou intervencionismos político-econômicos, afetando a soberania, ou até mesmo a hegemonia** estatal de outrem. Assim, afirmam os especialistas que é criado um ciclo sistêmico onde o processo anárquico gera um comportamento de auto auxílio, o qual, por sua vez, gera a configuração de uma determinada balança de poder.

No mundo militar, este balanceamento de poder é demonstrado, entre outros meios, pela realização de exercícios militares (denominados “jogos de guerra”), onde as Forças Armadas de determinada nação avaliam e aprimoram a capacidade de resposta a situações adversas, apresentando ao mundo sua capacidade de defesa ou ataque a possíveis inimigos. Em alinhamento com esse preceito de demonstração de capacidades estratégico-militares, entre os dias 11 e 15 de setembro de 2018 a Federação Russa será palco de um desses jogos, juntamente com China e Mongólia.

O Vostok 2018, segundo o Ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, será a maior manobra militar já realizada desde o período da Guerra Fria, com o envolvimento de 300 mil soldados, 36 mil veículos, entre carros de combate, blindados de transporte e de combate de infantaria e artilharia, além de 1.000 aeronaves que incluirão caças, helicópteros e aviões de carga e transporte de tropas. Serão adicionadas também neste exercício todas as unidades russas aerotransportadas e duas Frotas Navais. A China, por sua vez, enviará cerca de 3.200 militares, mais de 900 unidades de maquinaria de guerra, além de 30 aeronaves e helicópteros para se juntarem ao contingente russo.

Moscou, em maio de 2018, avisou a Aliança dos países da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre as manobras planejadas e convidou adidos militares a observarem os treinamentos. Segundo declarações do porta-voz da organização, Dylan White, existe a preocupação de que a Rússia esteja se preparando para um conflito em larga escala, com a demonstração de um evento de tal envergadura, e, segundo suas palavras, “Isso cabe no modelo que estamos vendo há algum tempo: uma Rússia mais assertiva, aumentando significativamente seu orçamento de defesa e presença militar”.

Perguntado se o custo de realizar um exercício militar tão massivo era justificado no momento em que a Rússia enfrenta maiores exigências de gastos sociais, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que tais jogos de guerra são essenciais. Declarou: “A capacidade do país de se defender na atual situação internacional, que muitas vezes é agressiva e hostil em relação ao nosso país, significa (o exercício) justificado”.

———————————————————————————————–

Notas:

* Origem na palavra grega anarkhia, que significa “ausência de governo”. O conceito aqui decorre da interpretação hobbesiana em que se está numa condição lógica pré-social, quando não há regras definidoras de uma ordem, e cada qual adquire os bens de acordo com a sua capacidade e força de obtê-los e os mantém conforme sua capacidade de preservá-los. Exatamente por isso se considera que a realidade internacional é anárquica, já que não há um governo ou autoridade que se sobreponha aos atores, colocando-os no estado de natureza, logo em situação de anarquia.

** Significa preponderância de alguma coisa sobre outra. Pode ser entendido, como a supremacia de um povo sobre outros povos, ou seja, a superioridade que um país tem sobre os demais, tornando-se assim um Estado hegemônico.

———————————————————————————————–

Referência bibliográfica:

CLAUSEWITZ, Carl von. Da guerra; tradução Maria Teresa Ramos; preparação do original Mauricio Balthazar Leal. – São Paulo: Martins Fontes; 1996.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Desembarque de tropas russas” (Fonte):                                                                                           

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Zapad-2009_military_exercises.jpg

Imagem 2 Soldados russos (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/01/3_brigada_specnaza.jpg/300px-3_brigada_specnaza.jpg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
Related posts
ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Ataques a capacetes azuis no Mali

ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Rússia apresenta reservas financeiras maiores que saldos devedores

ÁSIAEURÁSIANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Rússia compete com China por influência no Sudeste Asiático

AGÊNCIAS DE COOPERAÇÃOCOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

ONU HABITAT estimula a gestão dos resíduos nas cidades

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Olá!
Powered by